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Print ISBN 978-92-79-97244-7 doi: 10.2777/924816 KI-04-18-972-EN-C

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A Revolução Invisível: Pessoas Trabalhando para a Natureza nas Cidades Cecilia P. Herzog

(tradução do artigo publicado em inglês no blog internacional The Nature of Cities no dia 22 de março de 2016)

No terceiro Milênio vivemos em um mundo urbano globalizado, onde acontece perda de cultura local e profunda segregação racial. O clima está mudando em ritmo mais rápido que o previsto, afetando duramente cidades e pessoas, causando: enchentes, deslizamentos, secas, ondas de calor, colapso no sistema viário e redução na oferta de alimentos. Por exemplo, no Brasil quatro anos de seca contínua impactaram milhões de moradores de cidades na região sudeste, onde existem apenas 7% de remanescentes de Mata Chuvosa Atlântica (ecossistema original). Esse ano a região está sofrendo com chuvas intensas e frequentes que estão causando perdas econômicas, sociais e ambientais.  Enchentes-relâmpago e deslizamentos de encostas têm paralisado as funções urbanas quase diariamente, além de causar diversas mortes.

O poder de decidir os caminhos de nossas economias emana de forças tremendamente poderosas ditadas pelas companhias transnacionais, e as consequências podem ser sentidas em todo o mundo e todas as escalas. São muitos os desafios: ecológicos, sociais, culturais, políticos e econômicos. Eu acredito que estão todos interconectados. Os interesses de muito poucos dominam em detrimento da esmagadora maioria da população, e o resultado é a Nova Era das Trevas que estamos vivendo atualmente. Estamos cruzando os limites planetários, e essa é uma péssima notícia para todo mundo. Mas, os mais pobres estão sofrendo mais.

No meu ponto de vista, a globalização das paisagens reflete a supremacia dos interesses econômicos sobre as pessoas. É como se Robert Moses[i] tivesse perdido a guerra para Jane Jacobs[ii], mas tivesse deixado um legado de expansão urbana fundamentada em infraestruturas viárias extremamente caras que levaram à degradação de ecossistemas e segregação social em diversos países. E, nesse caminho as paisagens têm sido tremendamente alteradas, dentro, em torno, e para cidades baseadas em automóveis, não para pessoas.

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Figura 1 – Vista aérea de Brasilia, a Águia é cortada pelo lago artificial Paranoá, construído sobre o Cerrado (crédito: Cecilia Herzog)

Um excelente exemplo é Brasília, a capital Modernista do Brasil, que foi construída para direcionar o “crescimento a qualquer custo” do país. Foi inaugurada em 1960, com objetivo de explorar recursos naturais (i.e. paisagens, ecossistemas, minérios) localizados na região Centro e Norte do país (biomas do Cerrado e Amazônia). Em seu livro Cidades para Pessoas, Jan Gehl chama o planejamento urbano feito de cima para baixo, e de fora para dentro de “a Síndrome de Brasília”. Por que? Porque o projeto da cidade foi feito olhando de cima: tem a forma de uma águia (Figura 1). Os edifícios Federais e institucionais estão localizados no centro, onde, ao nível do chão “o espaço é muito grande e totalmente não convidativos, os caminhos são longos demais, retos e desinteressantes e carros estacionados impedem andar de forma agradável no resto da cidade” (Gehl, 2010, p.194).  As zonas residenciais de classes mais altas, comércio e serviços estão localizadas nas asas norte e sul. As classes trabalhadoras vivem, em sua maioria em cidades satélites inseguras, doentes e desassistidas que ficam por volta de 50 Km do centro, portanto há necessidade de largas estradas e avenidas para transportar as pessoas todos os dias. Essa forma urbana não é boa nem para as pessoas, nem para a natureza, mas é tremendamente interessante para o crescimento baseado em petróleo, o negócio “as-usual” (como de costume). A desculpa é criação de empregos, certo?

Errado! Esse ano celebramos o centenário de Jane Jacobs, e todos nós deveríamos levar suas lições para casa e fazer algo para mudar nosso ambiente urbano construído e hostil, introduzindo infraestrutura verde com e para as pessoas, onde é cinza e sem vida – incluindo as ruas e os extensos gramados.

Na verdade, podemos ver isso já acontecendo em movimentos ao redor do planeta. Pessoas estão se reunindo para mudar o mundo por meio de ações locais que visam restaurar as funções ecológicas da paisagem e melhorar a vida de todos: plantando árvores e comida orgânica, construindo espaços amigáveis incorporando coleta e drenagem naturalizada de águas das chuvas no local, destampando e restaurando rios e córregos.

Em inúmeros países os planejadores urbanos e os paisagistas estão sendo formados para restaurar os processos das paisagens e dos ecossistemas, trabalhando junto com biólogos, ecólogos, hidrólogos, cientistas sociais. Estão construindo um robusto campo de conhecimento, planejamento e projeto transdisciplinar.

A paisagem está intimamente relacionada com o modo como as pessoas valorizam a natureza, e é nela que há um tremendo potencial para fazer uma real revolução social e ecológica.

Por que amamos paisagens controladas?

A paisagem tem sido alterada por nós humanos, desde que começamos a andar das savanas da África para popular todos os continentes. A domesticação de sementes e animais foi possível devido ao aquecimento do planeta em  “apenas” 2°C, seguido de uma relativa estabilização climática 10.000 anos atrás. De lá para cá, a engenhosidade e voracidade humanas mudaram o planeta inteiro para sempre.

Através dos séculos e ao longo de nosso caminho rumo ao “progresso”, tecnologias possibilitaram mudanças maciças na fina camada (Pedosfera, Biosfera, Hidrosfera, Criosfera e Atmosfera) que recobre nosso lar comum, o planeta Terra. A conversão de ecossistemas em paisagens dominadas por interesses humanos e o bloqueio de processos e fluxos naturais possibilitaram um tremendo crescimento econômico. Após a Segunda Guerra Mundial, o ritmo de destruição acelerou tremendamente e a concentração econômica e de poder também. [iii]  Nesse processo, nos desconectamos dos ecossistemas naturais e perdemos a consciência do quanto dependemos deles e da biodiversidade. Então, fica fácil destruir o que não conhecemos e não temos relação emocional.

As cidades nasceram na Mesopotâmia mais de 6.000 atrás. As planícies dos rios Tigre e Eufrates foram transformadas por canais de irrigação retilíneos, formando campos de cultivo agrícola quadrados. Desde o princípio da civilização, água e plantas exóticas adornam jardins de propriedades das classes dominantes. Através da história, jardins (e forma urbana) foram influenciados pelo desenho ortogonal dos antigos. Jardins geométricos franceses são o arquétipo de poder e riqueza. Os jardins de Versailles são referência mundial de beleza e poder. O desenho dos jardins orientais (principalmente China e Japão) que mimetizam a natureza foi levado para os jardins ingleses, e no século XIX para os parques públicos de cidades industriais. Em todos os casos, a paisagem urbana foi profundamente modificada para ser um cenário que “parece natureza”. Um dos exemplos mais proeminentes desses casos de paisagem construída é o Central Park em Nova York (referência em espaço público multifuncional), e a gente nem se dá conta. [iv] Nós nos acostumamos a eles. Nós aprendemos a apreciar e valoriza-los. Nós os tomamos por paisagens naturais.

Então, a maioria das pessoas não vê nenhum problema se um remanescente de ecossistema começa a ser desmatado ou área úmida (wetland), a ser aterrada para construção. E daí, a paisagem transformada recebe um visual novo. Em geral, se torna um jardim meramente decorativo (com fusão estética de jardim Francês, Árabe e Inglês) e monofuncional, para adornar um novo empreendimento imobiliário em uma área de expansão urbana. As pessoas também não veem nada errado se morros são arrasados para abrir espaço para um viaduto, ou rios são canalizados e “entubados” no subsolo. Isso é “progresso”, é “crescimento”, e nós precisamos aumentar o PIB!

Existe conexão entre o “big money” [v] e a conversão da paisagem?

Eu escrevo para esse blog desde o início em 2012 sobre o que tem acontecido nas esplêndidas paisagens da cidade do Rio de Janeiro. Desde então, a cidade tem sofrido tremendas transformações para prepará-la para a Copa do Mundo de 2014, e principalmente para os Jogos Olímpicos que irão acontecer em agosto desse ano, e a mudança ainda não terminou. Dinheiro público foi direcionado para construir novas vias e túneis, de modo a impulsionar mais e mais expansão sobre remanescentes de ecossistemas para criar terra para o mercado imobiliário explorar. Condomínios fechados para as classes média e alta foram construídos sobre alguns dos últimos remanescentes de ecossistemas (áreas úmidas e restinga) na zona oeste da cidade. Os projetos de seus jardins não têm nenhuma conexão com a paisagem local, nenhuma referência à riquíssima e valiosa biodiversidade, uma das maiores do mundo. Água e vegetação têm função meramente ornamental.

Para a classe trabalhadora é ainda pior. Habitação social está sendo construída não apenas sobre ecossistemas naturais e paisagens produtivas com projetos sem áreas verdes, mas também longe dos empregos, mal servida por um transporte público caro e deficiente (muitas vezes com pontos de ônibus distantes e com difícil acesso).

Em julho passado, eu escrevi um artigo para o The Nature of Cities onde falei sobre a desconexão entre as recomendações que foram feitas pelos estudos científicos e as reais transformações que estão ocorrendo na cidade, com a construção de milhares de unidades residenciais e comerciais em áreas baixas e úmidas vulneráveis a enchentes e elevação do nível do mar. Naquela época, o mercado imobiliário tinha a expectativa de ganhar bilhões em cima de empreendimentos insustentáveis. Mas, o que ninguém esperava era o colapso econômico. Sim, o Brasil está sofrendo severas crises econômica e política.

No domingo, dia 14 de março, milhões de brasileiros saíram às ruas para protestar contra o governo e a corrupção que está devastando o país e as pessoas.

Na verdade o país está sofrendo um revés na visão de que a exploração dos recursos naturais (expansão urbana, petróleo, mineração, desmatamento e monocultura) é a solução para um crescimento econômico permanente. É uma situação extremamente complexa; a corrupção que alia grandes corporações a líderes políticos está sendo investigada. Ao protestar as pessoas estão dizendo: chega! Inúmeros donos e altos executivos de poderosas corporações e empresas públicas, bem como políticos, estão na cadeia ou enfrentando ações judiciais. Corrupção e uso impróprio de fundos públicos levaram a perdas que chegam à escala dos bilhões de dólares. O país está paralisado; os serviços públicos estão em colapso. As pessoas estão sofrendo muito, especialmente as menos privilegiadas.

Algumas das mais poderosas empreiteiras e construtoras que estão sendo processadas são responsáveis pelas grandes transformações que estão ocorrendo na cidade do Rio de Janeiro. A cidade é um grande negócio e nosso prefeito não tem nenhum pudor em explorar essa visão.  Na verdade, há um orgulho na postura oficial da administração de construir o máximo possível em todas as áreas remanescentes. Mesmo que possuam alto valor ecológico, social, cultural ou histórico, não importa se estão repetindo os mesmo erros da urbanização do século XX.

Mãe Natureza e a Cidades

Mas, a Mãe Natureza envia mensagens poderosas: na noite de 13 de março, uma intensa tempestade atingiu algumas áreas da cidade do Rio de Janeiro. O sistema de alarme disparou em alguns morros para avisar a população do risco de deslizamento de encosta e enchente. E aconteceu: as águas retomaram seu lugar. Áreas baixas originalmente ocupadas por manguezais e corpos d’água foram inundadas (Figura 3), mesmo onde existem caras soluções de engenharia pesada construídas recentemente. Nas áreas altas, pessoas mais carentes sofreram perdas por conta das corredeiras causadas pela chuva torrencial (Figura 2), matando cinco pessoas. Eu fiquei presa por horas sem conseguir voltar para casa. Na verdade tempestades têm castigado áreas urbanizadas quase que diariamente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, com impactos severos.

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Figura 2 – Tempestade violenta cai sobre a favela do Vidigal: correnteza desce pela escada de acesso – Rio de Janeiro, 13 de marco de 2016 (crédito: Marcela Gonçalves)

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Figura 3 – Enchente no Baixo Gávea – pessoas e negócios convivem com água contaminada – Rio de Janeiro, 13 de marco de 2016 (crédito: Internet)

Eventos climáticos extremos não estão acontecendo somente por aqui, como Haripriya Gundimeda ilustra em seu artigo no The Nature of Cities “Is the Deluge of Urban Areas in India are a Natural Phenomenon or Irresponsible Planning?” (“O Dilúvio em Áreas Úrbanas na Índia são um Fenômeno Natural ou Planejamento Irresponsável?”). Ela lista uma série de infraestruturas baseadas na natureza para adaptar as cidades e aumentar a resiliência frente aos violentos eventos climáticos, os quais são geralmente ignorados por tomadores de decisão e investidores míopes e gananciosos. Acredito que a cobiça e a corrupção que permeia a sociedade de consumo são um lado do problema. O outro lado é o planejamento irresponsável apoiado por pessoas desconectadas da natureza e que ignoram os processos naturais.

Pessoas e a Mãe Natureza

Os tempos estão mudando, e como Naomi Klein escreve veementemente em seu livro “This Changes Everything”, as Mudanças Climáticas mudam tudo! E as pessoas estão mudando o seu ambiente e elas mesmas.

No sábado dia 12 de março, muita gente se reuniu em uma área gramada localizada no meio da cidade de São Paulo. Com ferramentas, solo e mudas de árvores nativas, plantaram a primeira Floresta de Bolso dessa imensa e intensa metrópole sob a coordenação de Ricardo Cardim, tenaz e entusiástico botânico que ama e cultiva espécies autóctones de Mata Atlântica ameaçadas de extinção. Gente de todas as idades participou e transformou o pequeno lote; ao mesmo tempo elas se transformaram e estabeleceram novos padrões, inspirando instantaneamente muitos mais ao redor do país.

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Figura 4 – Plantio da primeira Floresta de Bolso de São Paulo, organizada por Ricardo Cardim (Sky Garden) em uma área central da cidade São Paulo – 12 de março de 2016 (crédito Facebook: Grupo Novas Árvores por Aí)

Nos últimos anos, movimentos locais se tornaram virais e se expandiram. Tenho escrito sobre eles com frequência porque vejo que têm realmente sido transformadores, não apenas na escala local: eles estão influenciando o país todo por meio das mídias sociais. A Internet encurtou distâncias; é uma excelente ferramenta para dar escala às transformações.

Inúmeros eventos estão educando as pessoas a se relacionar melhor com a Mãe Natureza, e ao mesmo tempo estão refazendo a paisagem urbana em espaços públicos e privados: jardins de chuva, projetos de jardins ecológicos, plantação de alimentos, troca de sementes, identificação de espécies de árvores, só para citar alguns. Eu fico profundamente sensibilizada pela mobilização e envolvimento que tem acontecido nos últimos anos na cidade onde nasci: São Paulo. Em meu artigo de outubro de 2013, People Take Over Nature in Cities with their Own Hands (As pessoas Tomam a Natureza nas Cidades em Suas Próprias Mãos), eu escrevi sobre os movimentos cívicos e ecológicos que estavam acontecendo em muitas cidades ao redor do mundo, incluindo São Paulo.

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Figure 5 – Implantação e plantio de Jardim de Chuva durante oficina organizada por Guilherme Castagna (Fluxus Design), na UMAPAZ em São Paulo. 12 de marco de 2016 (Crédito: Guilherme Castagna)

Também existem muitos funcionários públicos comprometidos e que têm trabalhado duro para converter em realidade seus sonhos de uma cidade mais verde e mais justa, mesmo com a vontade política atual que em geral não passa de maquiagem verde.

O Corredor Verde Olímpico (veja meu artigo no TNOC de 2012) está sendo implantado, apesar de todas as dificuldades. Silma Santa Maria, gestora das Unidades de Conservação da baixada de Jacarepaguá onde a maioria dos eventos olímpicos acontecerá, está levando adiante a missão de conectar Áreas Protegidas através de corredores verdes localizados nas margens dos poluídos e degradados canais e lagoas do sistema lagunar. Ela tem o apoio e colaboração de colegas e residentes locais. Ainda que não seja o projeto original do Corredor Verde Olímpico, é um excelente exemplo: o primeiro Corredor Verde do Rio de Janeiro. Silma promoveu uma oficina em dezembro para promover a participação pública e dar mais visibilidade ao projeto.

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Figure 6 – Oficina do Corredor Verde, organizada por Silma Santa Maria no Solar da Imperatriz. Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 2016 (crédito: Cecilia Herzog)

Isabela Lobato e Roberto Rocha também são servidores públicos militantes que desenvolveram (juntamente com a equipe) o Plano Diretor de Arborização Urbana (PDAU) da cidade do Rio de Janeiro, um plano abrangente baseado em pesquisas científicas e com embasamento técnico para levantar, projetar, implantar e monitorar a floresta urbana. Eles estão promovendo eventos participativos e palestras para debater e estimular a formalização legal do PDAU. Tem sido um trabalho duro; infelizmente até o momento está na gaveta do tomador de decisões. Ao mesmo tempo, Celso Junius, o diretor de arborização da COMLURB (isso mesmo, no Rio de Janeiro o manejo das árvores das ruas está a cargo da companhia responsável pelo lixo na cidade) está promovendo um levantamento e mapeando cada árvore das ruas, com apoio de técnicos e de residentes da cidade.

Empregos verdes são inclusivos. Pessoas com todas as formações e de todas as camadas sociais podem ser parte de uma economia verde. O Mutirão Reflorestamento é um programa que acontece há mais de três décadas na cidade, gerando empregos locais e conscientizando as pessoas em áreas mais carentes e vulneráveis que moram nas encostas do Rio de Janeiro.

Detroit é um exemplo instigante. Após a queda da indústria automobilística, a cidade tem um plano de verde para a cidade com ênfase em criar uma economia verde sustentável, reduzindo o consumo, priorizando a Ecologia, e educando e conscientizando sobre a importância da natureza.

A revolução está acontecendo e pode não ter a visibilidade que merece, mas pessoas em todos os lugares estão mudando e passam a valorizar a natureza nas cidades, apesar do apetite vorás do “Big Money” para fazer mais dinheiro. As paisagens altamente controladas estão dando lugar para a sucessão natural em jardins e parques ecológicos e produtivos. “Santuários” de abelhas estão sendo introduzidas em ambientes densamente urbanizados, como no teto da  Opera Garnier em Paris, ou no Parque Nacional da Tijuca no Rio de Janeiro. Projetos contemporâneos de paisagismo, como o prestigioso High Line em Nova York, estão reintroduzindo vegetação nativa e têm por objetivo “renaturalizar” a cidade. Até mesmo áreas urbanas abandonadas (“Le Tiers Paysage” de Gilles Clément) está ajudando a biodiversidade se recuperar. O paradigma do controle excessivo da paisagem que transformou nossos ambientes em desertos de biodiversidade está sofrendo uma revanche, com pessoas compreendendo a necessidade que têm de ter muitas espécies por perto de modo a que tenham vidas melhores com mais bem-estar.

Então há esperança, e vem das pessoas. Não há revolução feita de cima para baixo pelas classes dominantes. Como Naomi Klein diz, precisamos de resistência. Precisamos de pessoas com conhecimento e energia para dar o salto para um mundo novo sem combustíveis fósseis, se queremos que nossos filhos e netos tenham lugar para viver.

Esse mundo novo, em minha visão, tem que ser verde na concepção ecológica mais profunda (veja Chris Reed): tem que contemplar todos os seres vivos (biodiversidade e pessoas) e o ambiente – até mesmo o ambiente construído.

As cidades precisam passar por uma transformação profunda; a paisagem urbana importa muito.

Resumindo minhas ideias:

  • Paisagens saudáveis para todos.
  • Foco na vida: mais ecologia e participação das pessoas (empoderamento das pessoas e da ciência).
  • Menos engenharia pesada e decisões tomadas pelos grandes interesses (lutar contra a corrupção)
  • Planejamento e projeto ecológico da paisagem devem orientar todos os projetos novos, de renovação e “retrofit” de antigos, em todas as escalas e para todas as pessoas.
  • As pessoas devem reconhecer um rio como rio, não como uma oportunidade para direcionar esgotos ou drenagem de águas, ou como um canal pavimentado e morto.
  • Crianças devem sair e brincar em áreas naturais (ou não tão naturais, mas que tenham alta biodiversidade), não dentro de shopping centers.
  • Ruas devem ser vivas e combinar lugares para as pessoas, a biodiversidade e as águas (infiltrando e filtrando); igualmente importante, devem oferecer lugares para interação social com potencial para criar empregos verdes.
  • Energia não pode ser desperdiçada com climatização artificial quando há falta de arborização urbana para reduzir a temperatura (Ilhas de Calor Urbano), ou porque tem muito concreto em telhados que poderiam ser verdes.
  • Infraestrutura verde precisa tomar o lugar da infraestrutura cinza.
  • Educação ecológica é essencial para transformar as pessoas que transformam o ambiente, e a paisagem urbana dever ser um laboratório acessível a todos.
  • Ecossistemas urbanos devem ser protegidos e restaurados para torna-los mais resilientes a eventos climáticos cada vez mais fortes e frequentes, que trazem água de mais ou de menos, com ênfase nas pessoas morando em áreas mais vulneráveis.

Precisamos aprender a conviver com a natureza. Rápido! Não temos outra opção!

 

[i] Planejador urbano de Nova York nas décadas pós II Guerra. Foi responsável pela destruição de bairros inteiros para transformar a cidade por meio de grandes empreendimentos imobiliários com foco no automóvel. Construiu viadutos e estradas de rodagem que cortaram bairros destruindo os espaços urbanos e a vida nas ruas, além dos impactos sociais.

[ii] Autora de “Morte e Vida das Grandes Metrópoles Americanas”, dentre outros livros. Militante que conseguiu evitar a destruição do sul de Manhattan e conservou os bairros do Village e do SoHo, com ações de estratégicas e de mobilização contra os planos de Robert Moses.

[iii] Wright, Ronald. A Short History of Progress. House of Anansi, Toronto, 2005. http://ronaldwright.com/books/a-short-history-of-progress/

[iv] Spirn, Anne Whinston. Constructing Nature: the legacy of Frederick Law Olmstead. In: Cronon, William (ed.). Uncommon Ground: rethinking the human place. Norton, New York, 1995. Available at: http://www.annewhistonspirn.com/pdf/uncommon-ground.pdf viewed on: March, 15th, 2016

[v] O dinheiro do “mercado” que atende grandes interesses de e para poucos.

 

 

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