Reflexões

2016 Desafios e Oportunidades

As cidades são intrinsecamente relacionadas com a região em que está inserida, mesmo que seus moradores não percebam. As águas e grande parte dos alimentos são produzidos fora de seu perímetro. As fronteiras políticas são criação humana e não correspondem aos processos naturais, nem os de ocupação pelos assentamentos humanos que se espraiam por diversos motivos. Nas últimas décadas, com o acesso aos automóveis e construção de autoestradas, essa expansão tomou ritmo tão acelerado que tem transformado a superfície terrestre profundamente. Nesse processo, ecossistemas estão sendo fragmentados e eliminados.

O olhar sistêmico sobre a paisagem, com planejamento e projetos adequados podem regenerar as funções ecossistêmicas e devolver a qualidade de vida e o bem-estar aos moradores de áreas urbanas, periurbanas e rurais. O contexto regional, do bairro ou local é relevante. É necessário que se conheça o suporte geobiofísico, assim como os aspectos socioculturais e históricos. O processo de planejamento deve trazer todos para que possam não apenas contribuir, mas que aprendam como fazem parte do seu ambiente. Esse processo de aprendizado leva à educação ecológica, onde cada indivíduo compreende como pode contribuir para a melhoria do sistema onde vive. Precisamos aprender a conviver com a natureza, aproveitar os potenciais de nossas paisagens e das pessoas do lugar. As áreas urbanas dependem das funções ecológicas e sociais de sua região, seja em sua periferia imediata, seja em uma inserção maior.

Os desafios atuais são imensos, estamos passando limites planetários que podem comprometer a vida como conhecemos hoje no nosso lar, o planeta Terra. Tornar as áreas onde as pessoas vivem em lugares sustentáveis, resilientes, equitativos, democráticos e ofereçam qualidade de vida e bem-estar é vital para a transformação para um mundo melhor para todos.

Sebollas, 20 de agosto de 2016

***

2050 – Visão de um Mundo Novo

Os moradores das cidades têm acesso a áreas verdes públicas multifuncionais com rica biodiversidade; o ar e as águas são limpos; o solo é rico e dá suporte para ecossistemas e para cultivos diversos em todos os lugares, sem adição de agroquímicos, até mesmo em tetos, varandas e jardins. Todas as pessoas usufruem de áreas públicas com muitas árvores nativas e frutíferas, ouvem os pássaros, desfrutam de parques e caminhos ao longo das margens de rios e córregos limpos e vivos, enquanto as crianças brincam em segurança. As ruas dão prioridade para as pessoas a pé, de bicicleta, de patins ou skate, com calçadas amplas ladeadas por jardins e árvores que garantem sombra, conforto e segurança.

Os limites entre cidade e campo são tênues, se integram com áreas periurbanas e rurais que dão continuidade para o plantio de florestas ao longo dos rios, e campos produtivos que são cultivados por pequenos agricultores dentro e fora dos limites das cidades. O urbanismo agriculturável se tornou realidade, jardins e áreas verdes públicas e privadas deixaram de ser ornamentais e passaram a ser produtivos. A cadeia de produção de alimentação local e colaborativa ativou: a produção agrícola; a indústria de processamento em diversas escalas; a distribuição – no atacado e no varejo (incluindo feiras e mercados); o mercado de venda de comidas prontas – padarias, bares e restaurantes etc.; a criação de sistemas de educação enfocando comida saudável e local e sua relação com a natureza e os ecossistemas nativos. Dessa forma, a segurança alimentar passou a ser competência de toda a sociedade, pois o tema é transversal a diversas atividades econômicas e sociais, com inúmeras possibilidades de geração de renda.

O plantio de florestas em encostas e várzeas de rios, e a proteção de áreas úmidas se tornaram atividades econômicas, porque oferecem serviços ecossistêmicos essenciais para os centros urbanos, e a sociedade valoriza e paga por isso. A qualidade de vida e bem-estar depende dos ecossistemas para garantir o suprimento de águas, a amenização do calor, a redução de enchentes e deslizamentos, a proteção da vida silvestre, áreas de recreação e lazer, além de oferecer melhora na saúde pública.

A economia é circular e pulverizada, quer dizer, a maior parte dos produtos é produzida e comercializada por pequenos negócios. A sociedade de consumo deu lugar à sociedade de serviços, onde o objetivo não é possuir e sim usufruir de bens. Ofícios que quase desapareceram no início do século voltaram a ser importantes, como por exemplo: sapateiros, costureiras, oficinas de conserto de aparelhos elétricos e eletrônicos, estofadores, marceneiros. A sociedade atualmente é mais justa, com menos disparidades de renda. Os valores mudaram com ênfase no mundo real que mantém a vida. Os incentivos financeiros passaram a ter enfoque na restauração das funções ecológicas dos ecossistemas e no bem-estar da população, bem como nos processos criativos e artísticos.

A internet e as redes sociais possibilitaram a conexão que deu escala aos pequenos negócios. Os coletivos transformaram o mundo por conta da velocidade e visibilidade que suas intervenções inspiradoras tiveram, alavancando transformações sociais e ecológicas de sucesso, fazendo com que se multiplicassem em escala jamais vista. Por exemplo, plantio de árvores e hortas por grupos que se formaram no início do século XXI potencializaram a transição para cidades mais humanas e conectadas com a natureza, até mesmo em grandes metrópoles.

Todos os alimentos produzidos chegam às pessoas, já não existe o conceito de fruta feia ou bonita. Tudo se aproveita, os produtos são planejados para que as suas matérias primas retornem à cadeia de produção quando deixam de ser utilizados. A palavra descartável saiu do vocabulário, cada material é valorizado, porque a sociedade compreendeu que estava esgotando os recursos e impactando seus ambientes de forma tão predatória que o paradigma mudou radicalmente. Os resíduos orgânicos retornam para o sistema, por meio de compostagem local, ou de aproveitamento dos resíduos em cooperativas que atendem os bairros. O esgoto se tornou insumo: gera energia e vira adubo; a água volta limpa para o sistema.

As chuvas já não inundam mais, pois a maior parte das áreas urbanas se transformou em ecossistemas urbanos. As águas infiltram no subsolo e garantem que os rios continuem fluindo mesmo em tempos de seca. As águas das chuvas também são coletadas e armazenadas em cisternas para reduzir a necessidade de trazer água de rios distantes.

Áreas urbanizadas dependem do contexto regional e da bacia hidrográfica em que estão inseridas, com essa compreensão o planejamento estratégico ecológico da paisagem passou a ser praticado de forma permanente, num ciclo que se retroalimenta positivamente. Projetos e programas baseados em ecossistemas, multifuncionais, flexíveis, com redundância e adaptativos passaram a integrar os planos e as políticas em diversas escalas. A identidade local valoriza a cultura e história, orientando as decisões tomadas de forma educativa e participativa.

As áreas rurais são conectadas às múltiplas centralidades por meio de transporte sobre trilhos e ciclovias ao longo dos rios e córregos, que estão limpos e cheios de vida. Campos de cultivo e florestas penetram áreas urbanas como se fossem dedos, incentivando o acesso aos moradores da cidade.

As paisagens se regeneraram com a aplicação intensiva e em grande escala de métodos agroecológicos de cultivos, plantio de florestas biodiversas em áreas degradadas, e com o investimento em tecnologias verdes e limpas que mimetizam a natureza. As paisagens se tornaram em um continuum urbano-periurbano-rural harmônico e inspirador, cumprindo funções essenciais para perpetuação da vida na Terra.

As pessoas são saudáveis porque vivem em lugares saudáveis, ricos em biodiversidade. Os benefícios vão além da saúde física, mental e espiritual. As pessoas se encontram e vivem em comunidades, mesmo se estão em grandes metrópoles. As relações sociais são ricas, como as relações com a natureza. As crianças crescem com contato direto com as fontes da vida, e as escolas proporcionam educação vivencial nos ambientes naturais urbanos, periurbanos e rurais. Hortas nas escolas oferecem oportunidades para desenvolver conexões diretas das crianças com o solo, plantio, desenvolvimento e colheita de alimentos orgânicos, o que leva a que a alimentação seja fonte de inúmeras possibilidades de aprendizado e saúde para todos. Os espaços urbanos oferecem inúmeras opções para uma vida ativa, e todos podem caminhar, correr, jogar e se divertir, mantendo a sua melhor capacidade física e mental.

Cada pessoa conhece seu ambiente, reconhece espécies de fauna e flora pelo nome, participa ativamente da sua comunidade. Os moradores se sentem responsáveis pela qualidade de cada espaço público urbano e se relacionam com as áreas periurbanas e rurais com frequência, contribuindo para sua manutenção e cuidado cotidiano. Pequenas centralidades aglutinam os moradores dos campos, proporcionando oportunidades de educação, cultura, entretenimento, e incentivando as relações sociais e comunitárias.

A partir da segunda metade década do século XXI o clima mudou radicalmente, trazendo muitos desafios que levaram à transição para uma nova sociedade que enfoca a vida. As paisagens antes degradadas pelo uso intensivo da terra e alto índice de pavimentação, foram transformadas em paisagens de alto desempenho ecológico e social. Tornaram-se mais resilientes, recuperando as funcionalidades dos ecossistemas, fortalecendo os laços comunitários que possibilitaram a adaptação às novas e incertas condições climáticas locais, regionais e globais. A mudança para fontes limpas e renováveis de energia, e a erradicação do uso de produtos tóxicos e nocivos que contaminavam o ar, as águas e o solo, possibilitaram que as paisagens passassem a ser não apenas produtivas e oferecer múltiplos benefícios diretos para as pessoas, mas contribuiu também para reduzir a quantidade de carbono na atmosfera, ao estoca-lo na vegetação e no solo, com melhora significativa nos ciclos biogeoquímicos que garantem o funcionamento da biosfera.

Sebollas, 24 de julho de 2016

***

Não temos tempo a perder!

A palavra do dia é crise. Só escuto falar em crise, e análises e soluções possíveis que me parecem uma total insanidade. Pra mim não é nenhuma novidade que estejamos em queda livre em todos os aspectos.

O caso é simples e ao mesmo tempo tremendamente complexo. O Brasil, o Rio de Janeiro – estado e capital -, apostaram tudo num mercado falido. Petróleo, automóvel, incentivo ao consumo intensivo e monocultivo são o mesmo que cigarro é pras pessoas: VENENO! Sim envenena nossa casa comum, o planeta Terra. Extermina a vida.

O mundo está em crise, e nela ficará. A marolinha chegou como um Tsunami, e não aprenderam nada com ela. Se fixaram na ideia no crescimento a qualquer custo, o mesmo do pós segunda guerra que nos levou a essa tremenda enrascada.

O paradigma tem que mudar. Nossas maiores riquezas estão sendo destruídas a uma velocidade impressionante:

  • eliminamos nossas florestas, com isso enfrentamos secas cada vez mais violentas e duradouras;
  • canalizamos e envenenamos nossos rios, lagos e lagoas;
  • aterramos as áreas úmidas que acomodam as águas das chuvas e abrigam a biodiversidade que nos dá suporte para viver;
  • expandimos cidades sobre áreas que nos sustentam: produzem nossos alimentos e abrigam os ecossistemas com a maior biodiversidade do planeta;
  • expandimos as fronteiras agrícolas para criar boi ou soja pra boi;
  • estamos caminhando para a desertificação ou para inundações e destruição em massa.

É só ouvir o noticiário pra ver o tamanho do problema que enfrentamos. Gente a crise é sistêmica, e se não focarmos na vida, o jogo acabou.

A mídia tem uma imensa responsabilidade e deveria formar seus jornalistas em ecologia pra poder fazer qualquer análise sobre economia, crise, consumo, clima, violência, dengue, zica, trânsito e todos os seus temas preferidos. Estão todos interligados: nossas cidades e campos estão doentes, na verdade em fase terminal.

O Rio de Janeiro, que trabalha pela sua “marca” é um exemplo para o Brasil. E só faz bobagem. É uma atrás da outra, mas o marketing de cidade-empresa domina a cena. Quer ser uma cidade global, que quer entrar pra um mercado virtual que é tremendamente predador. Enquanto isso destrói a galinha dos ovos de ouro. A cidade foi maravilhosa, hoje só do alto.  Está a cada dia mais horrorosa e infernal!

O que estamos vivendo hoje, pra mim, parece um pesadelo. Escrevi, dei palestras e aulas sobre isso tudo, inclusive no TEDx Metrópole de 2014 aqui no Teatro Municipal. É muito doloroso ver as coisas acontecerem, e ainda surpreenderem pra pior.

Tem algo muito errado: o discurso do nosso prefeito não tem o menor rebatimento na realidade. Acho que ele e toda a sua equipe deveriam

  • andar pelas ruas de todos os bairros do Rio,
  • andar de ônibus como fazem as pessoas que trabalham duramente;
  • andar de bicicleta como meio de transporte regular,
  • andar pelas calçadas esburacadas e sem sobreamento,
  • atravessar ruas e avenidas a pé pra ver o tempo dos sinais de trânsito,
  • sair pelas ruas e subir nos morros em dias de chuva forte,
  • ir às praias marrons e fedidas.

Deveriam sair de seus ambientes fechados e climatizados e sentir a poluição do ar, o cheiro de esgoto, o calor insano, o barulho ensurdecedor.

Enfim viver a cidade!

Estamos assistindo à destruição do patrimônio comum por conta de um delírio OLÍMPICO. Estamos muito mal e vamos ficar muito pior: as contas ainda vão aumentar muiitoooo!

Acho que o povo merece mesmo. Quem vota nos políticos que estão aí? Quem se salva em toda essa lama que arrebentou o país como a represa que ruiu em Mariana? Não foi só o rio Doce que morreu. O Brasil está indo pelo mesmo caminho, e o Rio de Janeiro idem.

Esse ano vamos escolher nossos governantes. A responsabilidade é enorme! A escolha é de cada um, mas a maioria define quem vai nos liderar nos caminhos desafiadores que temos que seguir.

Além de tudo isso, ainda temos a MUDANÇA NO CLIMA. Está acontecendo e você está sendo impactado, mesmo que ainda não tenha se dado conta. E a coisa é seriíssima e urgentíssima. Estamos correndo risco de extinção. Isso mesmo, como foi com os dinossauros.

Tem muita gente boa trabalhando fazendo diferença em seu lugar. Mas precisamos mais, precisamos mudar o status quo. Precisamos nos articular e descobrir quem nos representa e quem enfoca a vida, de cada um e de todos, humanos ou não. Precisamos de mudança efetiva e imediata. Não temos tempo a perder!

Cecilia Polacow Herzog

Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 2016

***

A Mão Invisível

Pois é… O que está por trás da morte do rio Doce e das mortes em Paris, África e Oriente Médio? Do medo e impactos sociais em Minas Gerais e no Espírito Santo? Do medo e cancelamento de eventos de massa e outros eventos relevantes durante a CoP 21 em Paris?

Estudei economia e aprendi os fundamentos econômicos como verdades descoladas da base ecológica e social. Nunca consegui entender direito essa lógica, mas como vinha de uma família com pai empresário, não questionava nada. Hoje sei que era por ignorância mesmo. Meu mundo girava em torno do consumo, do possuir. Aos dezoito anos ganhei meu terceiro carro. Nada mais natural. Era tempo da ditadura e era melhor ficar alienada rodando de carro por São Paulo, do que ir estudar na USP e me misturar com comunistas.

Só que a vida surpreende, e aquilo que estava lá no fundo de minha alma apareceu quando comecei a estudar a paisagem, ecologia e as relações entre a vida e seu ambiente. Despertei de um longo torpor. E não consigo parar de pensar nas relações e interconexões que estão por trás de tudo o que acontece. Esse tal de pensamento sistêmico me pegou de jeito.

Estava arrasada por não conseguir ir a Paris para um evento que tinha durante a CoP no começo de dezembro. Queria muito estar presente nesse momento histórico, onde nossa sorte estaria sendo debatida por gente de todas as origens e formações. Mas, estava contente ao acompanhar a mobilização gigantesca que estava acontecendo em todos os países, e acreditava que poderia mesmo ser um momento transformador. Poderíamos entrar numa nova economia baseada em energia limpa, com mais equidade social, conservando de fato da biodiversidade que dá suporte às nossas vidas e cuidando de nossa casa – o planeta Terra.

Só que mais uma vez a vida surpreende. O rompimento da barragem em Mariana me abateu profundamente. A angústia tomou conta de minha alma, uma tristeza sem fim de ver a morte coletiva chegando a uma velocidade avassaladora. Em seguida vieram os atentados em Paris que ganharam o noticiário. E as atenções do tema da CoP, as Mudanças Climáticas, foram trocadas pela guerra ao terrorismo. Pra mim a intenção foi mudar o foco, manter as pessoas sob controle, não mudar nada nessa economia autodestrutiva.

E não consigo parar de pensar: por que rumamos para um desastre coletivo que é visível e a grande maioria das pessoas não dá nem bola? É a síndrome do Titanic? Estão quase todos tomando champanhe rumo à colisão com o Iceberg. O “mercado” – esse ente oculto – não tem o menor interesse em que as pessoas pensem, só comprem. Comprem de tudo e muito. E depois joguem fora pra comprar mais. São bilhões de excluídos doidos pra participar. Essa festa terminou e não dá pra todos. E agora, o que fazer? Mentir e manipular pra manter as hordas sob o controle do medo. Medo do desemprego, medo das bombas, medo da morte, medo do amanhã. A ignorância é a mãe da alienação que permite o domínio de poucos sobre muitos. Enfim, vejo a tal mão invisível da economia de mercado globalizada dominando e destruindo tudo. Como disse um professor meu na Fundação Getúlio Vargas no início da década de 1970: Comunismo? Esqueçam… ele irá se autoextinguir.  As grandes corporações é que irão dominar o mundo. Estava certo. Só faltou completar: Se preocupem, elas irão destruir o mundo.

Cecilia Polacow Herzog

Rio de Janeiro, 25 de novembro de 2015

***

Corrupção mata!

Nem sei como começar. Não consigo parar de pensar na conexão entre a roubalheira instituída e o que acontece em nossa sociedade.

Corrupção parece algo abstrato, mas não é!

Corrupção se materializa nas condições das escolas e universidade públicas, na qualidade do ensino e na valorização dos professores.

Corrupção inunda e desliza em tragédias que se repetem a cada chuva mais forte.

Corrupção pode ser sentida nos hospitais e nos doentes não atendidos, nos corredores lotados e imundos, nos médicos mal pagos.

Corrupção fede como as águas dos país sem saneamento básico.

Corrupção queima florestas e ecossistemas que desaparecem para dar lugar a pastos e monocultivos cheios de agrotóxicos.

Corrupção concreta obras faraônicas com custos bilionários que eliminam a vida: biodiversidade e cultura local.

Corrupção extrai petróleo e emite carbono.

Corrupção esquenta o planeta rumo à extinção da biodiversidade e consequentemente da humanidade.

Corrupção seca rios.

Corrupção polui praias e adoece frequentadores.

Corrupção destrói empregos.

Corrupção engarrafa as cidades, entupindo de carros ruas cada vez mais largas.

Corrupção destrói espaços públicos para dar lugar a condomínios fechados e shopping centers.

Corrupção explode em vazamentos de gás.

Corrupção divide a sociedade entre os que têm e os que não têm.

Corrupção mata ricos e pobres todos os dias.

Vivemos uma IDADE DAS TREVAS. O medo está em todos os lugares. O medo serve aos que decidem por nós.

Os que decidem por nós, na verdade decidem por eles e perpetuam essa sociedade que esta podre.

Nossos 3 poderes estão fedendo como as águas que cortam nosso belo e desventurado país.

No Rio de Janeiro vamos muito mal. Nas três escalas estamos mal. Cidade, estado e país desprezam a vida. Vivem de marketing insustentável. Estamos pagando caro, e as contas irão aumentar.

Deveríamos agora aprender chinês. Inglês não é mais a língua do momento. Agora a China é a salvação. Vamos entregar nossos recursos naturais e humanos a preços módicos para minorar a crise no curto prazo.

As contas sempre batem na porta. Pagamos as insanidades dos últimos mandatos. Não temos política de Estado. Temos políticas de momento para servir aos privilegiados que ignoram o que é viver em sociedade.

A coisa está feia e vai ficar cada dia pior enquanto tivermos corrupção sistêmica que corrói o que a civilização tem de bom.

Publicado em 20.5.2015

***

Precisamos ser campões não apenas no futebol, mas em cidades que oferecem qualidade de vida para TODOS!

Para ler e refletir como estamos na contramão da história: pré-sal, incentivo à venda de carros, construindo usinas de energia à carvão, expansão das cidades sobre áreas vulneráveis a inundações, canalizando rios e córregos, cortando árvores nas cidades e desmatando áreas florestadas, usando agrotóxicos proibidos em muitos países – apenas alguns exemplos.

Os resultados são facilmente vistos em sentidos em cidades brasileiras: cidades doentes com pessoas idem. Por que não fazemos o contrário? Esse ano teremos eleições. Cada um de nós é responsável por motivar e transformar essa triste realidade brasileira. Precisamos de muita humidade para mudar, saber que temos outras opções e que o tempo para mudança está terminando. Temos inúmeras crises que precisamos enfrentar à luz da realidade que se apresenta nesse momento.

Veja o exemplo da Alemanha (link abaixo) que iremos enfrentar hoje nas quartas de final da Copa do Mundo de futebol – essa doença nacional.

Espero que a gente ganhe nesse campo e no campo da sustentabilidade e da resiliência. Vamos procurar novos caminhos para que TODOS saiam ganhando de verdade: bem-estar em nossas cidades.

Alemanha: recorde de energia solarhttp://vdibrasil.com/comunicacao/atualidades/atualidades-detalhe/alemanha-recorde-de-energia-solar/e0714d5d9a72bdf797c22e3d4ab83011/

Publicado em 08.07.2014

***

Coloca o Rio em Perspectiva (serve pra outras cidades também?)

Coloca tudo em perspectiva: engarrafamento; transporte público da pior qualidade; poluição das águas, ar e solos; falta de respeito e urbanidade; ruas esburacadas; calçadas em pedaços; ciclovias de papel; árvores urbanas doentes, morrendo e caindo aos pedaços; violência de toda sorte; saúde e educação precárias tanto pra pobres quanto pra quem paga plano de saúde e escola particular; preços abusivos por conta de impostos extorsivos – visto que não temos nenhum retorno; imóveis com preços inatingíveis para grande parte da população; falta de espaços públicos de qualidade; conjunto de construções que formam uma cidade horrenda – claro que tirando a paisagem natural espetacular; FALTA EFETIVA DE PARTICIPAÇÃO DOS MORADORES.

Então soma: foco da administração no “Marketing em uma Cidade-Empresa” onde o alcaide já foi considerado um tremendo CEO pelo presidente da IBM – em evento fechado da empresa para promover “Smarter Cities”  no NOSSO Teatro Municipal em 9 de novembro de 2011.

IMG_1024

Daí adiciona tudo o que está sendo gasto e que teremos que pagar de alguma forma – lembra de reforma do entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas que nos custou a bagatela de mais de 8,3 milhões de reais?

PARQUE_LAGOA_MANCHETE_22_11_2010PARQUE_LAGOA_REFORMA_21_11_2010

E agora veja a manchete do jornal O Globo de hoje – matéria em todas as redes de notícias internacionais.

IMG_4675

Você ainda acha o Rio de Janeiro a “Cidade Maravilhosa”?

Quem vai ser otário ao ponto de pagar os preços cobrados para se hospedar para assistir jogos ? ou continuar morando por aqui se tiver oportunidade de ir para algum lugar com alta qualidade de vida e que respeita a vida?

Lembre de tudo o que aconteceu e acontece em sua cidade, seu Estado e seu País na hora de votar!!

Publicado em 23.04.2014

***

Florestas, água, clima e a curva

No contexto atual não dá mais pra ler pessoas do quilate de um Carlos Sardenberg achar que parte do que estamos passando com o calor e a estiagem no período de chuvas ser um “ponto fora da curva”.[i] Não Sr. Sardemberg, não é um ponto fora da curva. Como também não foi imprevisível a chuva de abril de 2010 no Rio de Janeiro, Sr. Prefeito da cidade.

O que acontece é que não tem mais curva! Ou melhor, a curva está ficando doida, quer dizer o clima em nossa casa o Planeta Terra está cada vez mais louco, sem padrão, sem estações porque estamos abusando dele! Simples assim. A visão economicista de mercado que visa eficiência em tudo com olho em lucro máximo vai levar a todos nós à extinção.

O pior é que existe uma força poderosa de desinformação, que procura manter as coisas andando como estão. É como se os recursos naturais que possibilitaram o desenvolvimento de nossa civilização insana e autodestrutiva a tomar esses rumos não tivessem fim. Mas, têm! Inclusive o petróleo, está cada vez mais difícil de extrair, mais caro e perigoso ambientalmente.

O Planeta não tem 10.000 anos! Esse tempo é um tempo curto pra ele. Nesse período foi quando o clima se estabilizou e nós – humanos – pudemos iniciar a cultivar e nos fixar “a terra, acumulando capital e em mais 5000 anos começaram a surgir as cidades. O Planeta é muito mais antigo, tem mais de 4 BILHÕES de anos. Muita coisa aconteceu antes de nossa arrogante espécie se estabelecer em todas as regiões e uma minoria achar que era dona do que podia se apropriar.

FIG-1-1--HOLOCENO-ERA-GLACIAL-PB-DRAFT

 O gráfico mostra desde 100.000 anos atrás – período do último ciclo glacial – até o presente, com os eventos marcantes da história humana. O período do Holoceno ocorreu nos últimos 10.000 anos, com a relativa estabilidade do clima que permitiu o desenvolvimento da nossa civilização até o início do século XXI. (Herzog, 2013 Adaptado de Rockström et al., 2009)

As florestas foram sistematicamente derrubadas e continuam sendo. A Amazônia que deveria ser considerada nosso maior tesouro está dando continuidade à insanidade humana com a construção de barragens para gerar energia longe dos centros consumidores. Os resultados podem ser vistos hoje mesmo em Rondônia.

É desastre pra todo lado. Não só no Brasil, mas nós estamos fazendo TUDO ERRADO!

Nos campos e nas cidades.

São Paulo vai ter que se abastecer do rio Paraíba do Sul. Rio e Minas vão sofrer. Isso era previsto – só pra ninguém achar que era imprevisível.

Mas por qual qualidade de água estão brigando? ÁGUA SUJA!! RIOS MORTOS! Veja as matérias de ontem no O Globo. O desmatamento é fruto de uma burrice misturada com ignorância e ganância. A urbanização desenfreada e a eliminação de áreas ecologicamente importante para a sustentabilidade estão transformando o clima regional e local.

Só pra frisar que quando eu falo de ecológico, me refiro a uma visão sistêmica que estuda a nossa casa como um todo. O todo é muito mais que as partes, existem relações intrínsecas e fundamentais que podem interferir para melhorar ou piorar a nossa casa. Lembrando que ecologia é o estudo da casa!!

Estão fazendo de tudo para piorar. A visão é do aqui e agora, com lucro máximo para poucos.

Os resultados são sentidos em todas as escalas espaciais e sociais. Ninguém por aqui vive realmente bem. O Rio não está mais um caos. O RIO É UM CAOS QUE VIVE DE MARKETING!

Hoje é Dia Mundial das Florestas e amanhã é o Dia Mundial das Águas. Vamos muito mal nos dois quesitos. O mito de que temos tudo furou. Matamos nossos mananciais e mudamos nosso clima. É isso e simples assim. Quem decide, decide errado. Decide a favor de interesses distantes dos interesses em transformar as cidades em lugares bons para se viver, com pessoas saudáveis.

Sinto muitíssimo em afirmar isso: ESTAMOS NO CAMINHO ERRADO, ANDANDO PRA TRÁS! Nosso alcaide e seus agregados passaram dos limites na capacidade de fazer barbaridades.

Existem milhares de pessoas conscientes do que está acontecendo, mas se não houver um entendimento e articulação, não há poder. Não se pode mudar o rumo das coisas. Mas, ainda tem gente que trabalha por um Rio melhor.

Vocês todos têm meu apoio para ver se tentamos melhorar a curva de qualidade de vida local: priorizando TODAS as pessoas; reduzindo as ilhas de calor; melhorando a qualidade do ar e das águas; oferecendo uma cidade mais silenciosa e respeitosa, com muitas árvores e lugares para nossas crianças e velhos de todos os níveis de renda perto de passarinhos. Não é um sonho. Cidades assim existem em muitos lugares. E o pior que vão pendurar as contas do que der errado em seu imposto!

Abraços,

Cecilia

Rio de Janeiro, 21 de março de 2014


[i] Coluna “Não é só azar” no Jornal o O Globo de 20.03.2014.

***

Pois então, cansei!

Não é fácil admitir, mas estou com uma tremenda frustração de ver tantas oportunidades desperdiçadas para a cidade do Rio de Janeiro melhorar. Há mais de 5 anos nosso governante está desprezando um tremendo potencial que a cidade tinha para se tornar uma cidade “maravilhosa”, não apenas por conta de um visual das montanhas que emolduram seus cenários, mas de se tornar MARAVILHOSA de fato: por dentro em seus lugares, ruas, praças… Poderia ter ido pelo caminho do respeito aos seus moradores, investindo no aprimoramento de seu patrimônio natural com vistas a melhorar a qualidade de vida urbana. Mas ao contrário, a cada dia está dilapidando o que tinha.

No século XIX a Floresta da Tijuca foi replantada porque a estiagem foi terrível. Os mananciais estavam secos devido ao desmatamento para plantar café nas encostas da cidade maravilhosa. Daí não deu certo e D. Pedro II tratou de dar um jeito organizando a sua revegetação. Hoje temos a joia rara que é o Parque Nacional da Tijuca. Deu certo!

Será que nosso prefeito não sabe disso? Será que não tem noção que depende da natureza para viver? E seus filhos, como vão viver por aqui? Ou não vão?

Estou literalmente derretendo com o calor, e desidratando com a seca. Sombra e água fresca aqui não há.

Árvores? Áreas verdes com qualidade? Ruas arborizadas?

Pra que?

Há praticamente 3 meses o sol não dá trégua. E parece que vai ser assim daqui pra frente.

O pior é que se vier uma tempestade pode ser mais um desastre anunciado. O clima está mudando e até agora não se fala em mudanças climáticas. Deve ser pra não atrapalhar os negócios. Estão investindo (quer dizer, ESPECULANDO) em áreas sujeitas à elevação do nível do mar.

Cidades do mundo não colocam mais dinheiro público em nada subterrâneo. Não deu certo quando o furacão Sandy entrou em Nova York e inundou o metrô de lá. Agora estão vendo como fazer suspenso.  A prefeita da cidade vizinha de Hoboken está propondo a construção de uma ponte para pedestres e ciclistas para garantir a conexão com a ilha de Manhatan.

Estamos mesmo na contramão da história. E não há nada a fazer. A cada dia a política e os planos são alterados à luz dos interesses do momento. Na verdade não tem plano nenhum a não ser NÃO TER PLANO.

A paisagem da cidade está mais feia a cada dia, mais fragmentada, com seus rios sendo canalizados, e mais ruas para carros e transporte sobre rodas sendo construídos. Os carros e ônibus têm preferência, e estão paralisados em engarrafamentos cotidianos que deixou São Paulo pra trás. Os pedestres e ciclistas não têm vez!

O orgulho carioca é ter praia e paisagem linda. Mas, tira as montanhas, as florestas. Não sobra nada, nadinha… O concreto e asfalto dominam em um deserto construído. Triste cidade…

Rio de Janeiro, 17 de março de 2014

***

Rio de Janeiro: Marketing X Realidade

Passei a semana do Réveillon fora do Rio…, e voltar não é fácil. A pilha de jornais estava me esperando e fui tentando tomar pé do que aconteceu nessa semana de “festa” que atrai visitantes de vários lugares à Cidade Maravilhosa. As manchetes dos jornais dão uma dimensão que tem algo muito errado por aqui. Fica evidente que o marketing, por melhor que seja não transforma a realidade. Por sorte não teve nenhuma grande tempestade, ainda…

Há dias um calor infernal assola a cidade com temperaturas que estão entre as mais quentes do mundo. Para refrescar as pessoas, que se arriscam, mergulham em praias poluídas. Filas de até quatro horas para visitar o cartão postal mais famoso da cidade, nessa temperatura… Para fechar o pacote “Maravilhoso” o trenzinho quebra e turistas ficam presos dentro do trem, e outros 300 com mais “sorte” ficam retidos horas lá em cima “apreciando a vista” sem poder descer. Os que estão no meio da mata, não ficam no escuro e caminham pelos trilhos depois de muito tempo à espera de outro trem para tirá-los dali. Os depoimentos na televisão mostram a tremenda vulnerabilidade da infraestrutura de suporte ao turismo da cidade.

Não é à toa que os imóveis nas cidades vizinhas, que oferecem qualidade de vida um pouco melhor, estão bombando. Cariocas estão em busca de lugares melhores para viver, nem que seja parte do tempo. Em dias de trabalho a cidade paralisada pelo trânsito, em dias de férias o lazer impedido pelo calor e poluição. Quando será que o carioca vai acordar e tentar mudar a sua cidade e transforma-la realmente em Cidade Maravilhosa?

Cidades para pessoas em harmonia com a natureza oferecem parques arborizados em todos os bairros, ruas e ciclovias arborizadas, águas limpas nas praias, rios e lagoas, lugares para pessoas conviverem em espaços públicos bem projetados que amenizem as ilhas de calor, transportes coletivos de alta qualidade – para que ricos e pobres usem em seu cotidiano como em cidades de vários países.

Pois é, estamos mesmo precisando de um choque de gestão que traga a qualidade de vida para a realidade do Rio de Janeiro. Não basta dizer que faz, é preciso fazer de forma planejada e integrada no longo prazo com participação dos moradores e de especialistas de todas as áreas que atuam nas cidades.

Rio de Janeiro, 4 de janeiro de 2014

***

Slow Food é um movimento mundial que valoriza a alimentação local e variada, com inúmeras espécies que se associam para que possamos manter nossas vidas saudáveis e a vida no planeta. O vídeo abaixo é muito bom de ver para avaliar o que devemos fazer para contribuir para que a vida continue para nossos netos, bisnetos e demais gerações.

Assista em:

 Sobre Alimentação e a Biodiversidade

Publicado em 28.10.2013

***

Cidades Saudáveis para Pessoas Idem

Cidades são sistemas extremamente complexos, como os seres humanos. Ambos são compostos por inúmeros subsistemas, que por sua vez são um conjunto de elementos conectados por fluxos de energia e matéria que desempenham diferentes funções de modo a garantir a funcionalidade do sistema como um todo.

Pessoas física, mental e espiritualmente saudáveis possuem os subsistemas respiratório, cardiovascular, digestivo, mental, afetivo, entre inúmeros outros em boas condições. Cidades possuem inúmeros subsistemas que interagem e mantêm a funcionalidade do ecossistema urbano. Esse ecossistema é um mosaico formado por inúmeros elementos naturais e construídos, conectados por fluxos de energia e matéria. Para que sejam saudáveis devem contar com corpos d’água visíveis, limpos e interconectados, esgotos tratados, boa circulação de pessoas e produtos, suprimento regular de energia e alimentos. Quando os fluxos humanos ou urbanos se rompem o sistema é paralisado, e pode entrar em colapso temporário ou não.

Pessoas fazem exames para saber como anda a sua saúde. Atualmente, quem pode faz exames clínicos, laboratoriais e de imagem de modo a monitorar seus subsistemas e prevenir doenças, pois é mais eficaz prevenir do que remediar.

Cidades brasileiras fazem justamente o contrário, fazem os estragos e depois tentam remediar enxugando gelo com dinheiro pago pelos cidadãos. Não é à toa que multidões ganharam as ruas no Brasil inteiro. Temos questões éticas estruturais e emergenciais que parecem estar na base dessa revolta. Mas, o estopim foi justamente o sistema de mobilidade urbana que detonou as massas. Os ecossistemas urbanos brasileiros estão doentes, e seus moradores idem.

P1400119-small

Figura 1 – Adivinhe onde é ? Pois é em uma megacidade: Nova York em um domingo de fim de verão espetacular em setembro de 2013, no bairro onde estavam instaladas as empresas de frigoríficos. Atualmente foi regenerada com intervenções como o famoso parque suspenso High Line (Foto: Cecilia Herzog)

Estamos na contramão da história. Enquanto países que levam a sério a qualidade de vida de seus moradores se adaptam para conviver com condições totalmente diversas das que tivemos no século XX, o Brasil persiste em apostar em um crescimento a qualquer custo com uma miopia inacreditável. Investe e subsidia a produção de petróleo caríssimo e de alto risco e de automóveis, e aposta em usinas termoelétricas como solução para a crise de energia. As cidades sofrem as consequências. Mas, também persistem em cometer os mesmos erros do passado: canalizam rios e constroem estações de tratamento em sua foz; mantêm suas fontes de água distantes; investem em sistemas tratamentos de esgoto centralizados que requerem redes longas, caras, ou carreiam grande parte para o oceano que não resolvem o problema; apostam na construção de mais vias destinadas ao transporte individual.

DSC01161_small

Figura 2 – No Rio de Janeiro o Rio Sangrador sendo canalizado – persistem na DRENAGEM HIGIENISTA: as águas continuam poluídas por esgoto e ao ser canalizado o rio perde suas funções, as águas ganham velocidade e aumentam os alagamentos nas áreas mais baixas. É exatamente o contrário do que está sendo feito para regenerar cidades doentes (Foto: Gisela Santana, 2012)

Falamos em sustentabilidade sem conceituar o que realmente seja se sustentar no longo prazo. Produto Interno Bruto é um indicador ultrapassado. Para ser sustentável uma pessoa precisa, antes de tudo, ser saudável. Senão de nada adianta ter contas bilionárias – lembre-se do Steve Jobs. Com cidades acontece a mesma coisa. De nada adianta investir em negócios, se o seu ecossistema está doente.

ATERRO VARGENS

Figura 3 – Área que recebe e acomoda as águas na Baixada de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, recebe aterro que visa a ocupação de áreas susceptíveis à elevação do nível do mar, sujeitas cada vez a inundações mais frequentes. Além disso, elimina a biodiversidade fundamental para manter a saúde das cidades para as pessoas. Conclusão: tragédias anunciadas ! (Foto: Celso Junius)

A mobilidade urbana ganhou uma tremenda visibilidade após as manifestações. Sem dúvida é essencial. Mas, é preciso mais. É necessário que haja uma mudança radical na cultura, quer dizer no paradigma. É urgente focar nas pessoas, como fazem cidades de todo o mundo em todos os continentes.  Estamos enfrentando crises gravíssimas de águas, alimentos, energia, escassez de recursos naturais que são agravados pelas mudanças climáticas que nos trazem previsões sombrias para os próximos anos.

Figure-1-small

Figura 4 – Rua Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, em dia de chuva fraca: imobilidade que ocorre permanentemente + ruas alagadas a cada chuvinha. O escoamento das águas das chuvas é tão poluidor quanto esgoto. Em países que levam a saúde de suas cidades e moradores a sério tudo é planejado e projetado para evitar o que acontece por aqui (Foto: Cecilia Herzog)

Bairros e cidades ecológicas são realidades que atraem não apenas empresas e moradores, mas turistas que querem ver como é viver bem. Basta ir a Estocolmo, Berlim, Freiburgo, Londres, Nova York, Tianjin (China), e inúmeras cidades na Coréia do Sul, inclusive Seul. Elas são fruto de planejamento de longo prazo e de projetos inovadores, muitos buscam mimetizar a natureza para poder viver em harmonia com seus processos e fluxos.  O melhor de tudo é que estão faturando alto com a melhoria da qualidade de vida local. Estamos perdendo mais uma vez o bonde da história. Precisamos de cidades saudáveis para pessoas idem.

Rio de Janeiro, 29 de setembro de 2013

***

Carros e cigarros

Cresci sob a influência da imagem do cigarro. É, era glamouroso fumar. Marilyn fumava. James Dean fumava[1]. Todos os chiques, “sexys” e ricos fumavam. Meu pai fumava. Até ficar comprovado que cigarro mata, morreram milhões… inclusive meu pai, de enfisema. O cigarro envenena as pessoas.

marilyn2 James2

Foi uma luta imensa até a proibição da propaganda do cigarro, seguida anos depois pela proibição de fumar em lugares públicos fechados. O cigarro perdeu o glamour. Hoje é reconhecido com um vilão para a saúde das pessoas, apesar de ainda ter adeptos no mundo todo.

O carro é o cigarro das cidades. O carro é glamouroso, sexy, chique. É vendido de todas as formas. É considerado o salvador da nossa economia (que tem os seus os faróis voltados para o passado – é a mesma mentalidade desenvolvimentista da década de 1970). Continuam incentivando a venda de veículos que poluem o ar, as águas e o solo. O carro precisa de ruas e estacionamentos que tiram os espaços das pessoas e da natureza nas cidades. Asfalta e sela o solo. Tem prioridade sobre tudo e sobre todos: pedestres e ciclistas, adultos e crianças, pobres e ricos.

O carro causa transtornos de todos os tipos: leva à imobilidade urbana, paralisa as pessoas, engorda, segrega cada um em seu espaço. Carro só anda em cidades idealizadas em comerciais, onde as ruas estão vazias.[2] O carro mata. E muito! Em acidentes e em doenças associadas à poluição e ao estilo de vida individualista, sedentário e associado ao consumo a qualquer custo. O carro envenena as cidades, que envenena as pessoas que nela vivem.

freelander

Triste manipulação dos fatos feita pelas indústrias que visam lucros acima de tudo. Esse mercado cruel que não considera seres humanos, e sim consumidores abstratos que dão lucro com consumo dirigido por propaganda que vende qualquer coisa.

Precisamos de um movimento consistente, como já ocorre em diversas cidades, para tirar espaço do carro de nossas cidades. O mesmo que ocorreu para tirar o cigarro de nossa vida e nos deixar viver.

Precisamos devolver as cidades para as pessoas em harmonia com a natureza, com espaços de convivência democráticos. Precisamos de ruas onde tenhamos prioridade, com árvores que nos sobreiam, passarinhos que cantam e nos encantam.

Cidades podem e devem mudar de paradigma: do cinza para o verde, dos carros para as pessoas. A escolha é em favor da VIDA DE TODOS!


Postado em 17.05.2013

==================================================

O que que eu tenho a ver com a NATUREZA? Eu moro na cidade!

Acho que essa pergunta passa pela cabeça de muita gente que mora na cidade. Inclusive passava na minha há uns 10 anos atrás. Não tinha muita ideia da relação que eu, como ser urbano, tinha a ver com a natureza. A exceção era nos fins de semana e férias, quando saía da cidade em busca de lugares como Mauá, perto de rios e matas para descansar e aliviar as tensões de um cotidiano corrido e estressante.

No entanto, tudo mudou em pouquíssimo tempo quando resolvi mudar de vida. Sair de escritórios e shoppings e buscar uma nova carreira. Afinal ia fazer 50 anos! Sem perceber, acabei mudando radicalmente. Foi como ir botando lentes cada vez mais poderosas que me fizeram enxergar o mundo e a vida sob outra ótica, totalmente nova e surpreendente. Descobri um mundo novo que na verdade tem bilhões de anos. Caí na real. Sou humana: não só dependo da NATUREZA, mas sou NATUREZA! Aliás, a cidade é NATUREZA!!

Daí para frente, as coisas foram acontecendo em minha vida como se tivesse uma mão invisível fosse me guiando. Não precisei entrar em ansiedade, só ir vivendo, pesquisando aprendendo e aproveitando as oportunidades que foram se abrindo. Comecei estudando “paisagismo” pensando em fazer jardins belos para grandes e ricas mansões, pois era desse meio que eu vinha. Só que os rumos que se abriram foram totalmente diversos: me apaixonei pela grande paisagem, seus processos e fluxos, por geologia, hidrologia, biologia, botânica. Também comecei a compreender como nós humanos, influenciamos essa paisagem de forma drástica, para o bem e para o mal. Como sofremos cotidianamente com as intervenções feitas com a pretensão de dominar a incontrolável NATUREZA. Mas também, como podemos nos beneficiar de planos e projetos que procuram aprender e mimetizar a NATUREZA da qual fazemos parte.

Aprendi que a humildade é que poderá nos trazer sustentabilidade e tornar nossas vidas urbanas melhores, mais sustentáveis e que poderão tornar as cidades lugares onde a convivência harmônica com outras espécies animais e vegetais poderá nos oferecer ar puro e águas limpas, comida orgânica farta e acessível a todos, transportes limpos, seguros e confortáveis. Com isso, poderemos contribuir para a sustentabilidade do planeta, com menos necessidade de consumo de coisas das quais na verdade não precisamos para viver uma vida plena e feliz.

Postado em 04.04.2013

=============================================================

Questão de sobrevivência

Essa semana assisti ao filme Surviving Progress , onde Ronald Wright, o autor do livro A short history of progress (uma breve história do progresso) conduz o documentário com a colaboração de vários cientistas e pessoas ligadas a atividades relacionadas ao “progresso” humano ou às alternativas que poderíamos ter ao progresso focado apenas em desenvolvimento tecnológico. Nesse quadro de entrevistados está a nossa ex-ministra e ex-candidata à presidência da República Marina Silva.

O filme começa com a questão “O que é progresso?”. Um silêncio constrangedor leva à imediata reflexão sobre o que de fato é o que chamamos de progresso. Segundo o filme, a pergunta fundamental que nos fez chegar até o presente “progresso” com todos os prós e contras é o eterno “POR QUE”.

Quando o filme terminou fiquei refletindo sobre o que tinha ouvido e tentando relacionar com minhas perguntas de “por que” as pessoas reagem de maneiras tão diferentes frente aos desafios que enfrentamos nesse momento que abrange todo o planeta, até mesmo colocando em risco o futuro da humanidade e de toda a vida que nos dá suporte com as mudanças climáticas, já tão evidentes e comprovadas cientificamente. Chegamos ao Antropoceno . Parece que existe uma letargia ou um desinteresse nos impactos que estamos sofrendo e que só irão piorar, podendo nos levar ao mesmo destino dos dinossauros: a extinção da espécie humana – junto com milhares de outras.

Gary Marcus, um psicólogo cognitivo que participa do documentário, diz que a nossa mente é fundamentalmente igual à dos chipanzés que tem uma visão imediatista de curtíssimo prazo. Sabemos e o filme ressalta que nossos antepassados caçadores-coletores ao se depararem com uma ameaça iminente (por exemplo, um leão), tinham uma das duas reações: lutar ou fugir (fight or flight). Isso está impresso em nosso DNA há mais de 50 mil anos e não muda em poucas gerações!

A partir desses comportamentos inatos e instintivos – (a) imediatismo, (b) lutar pela vida ou (c) fugir para não enfrentar o perigo -, comecei a pensar nas reações das pessoas em nosso contexto atual e como esses fatores são usados pelas grandes empresas, pela propaganda e pelas diferentes mídias. A sociedade atual baseada no consumo tem interesse e investe pesado para que pensemos de forma imediata, por exemplo: o que ganho com isso agora? É melhor comprar um carro do que andar de ônibus. Claro! Nesse sistema de transporte ultrapassado que possuímos, não pode ser mesmo de outra maneira. E ainda o governo incentiva produção e a venda para estimular o crescimento econômico a qualque custo, “à la” década de 1970.

O segundo grupo que procura lutar pela vida em geral procura se organizar em grupos, busca formas para não sucumbir de maneira próativa. São as ONGs, as organizações humanitárias, ambientalistas e muitas mais.
O terceiro grupo, o que foge da briga, também acredita que poderá enfrentar as forças da natureza através da tecnologia. A tecnologia tem ganhado ares de “deus salvador” de todos os males que ela mesma vem criando (o lado explorador de recursos naturais e de pessoas). Quem ganha com essa ilusão de solução milagrosa que virá no último momento para nos salvar das tragédias maiores que estão por vir? Bem, isso é bem complexo, mas basta dar uma olhada nas tecnologias que manipulam os gens, que criam organismos do nada, que brincam de criador todo-poderoso, que desejam passar a ideia de que os humanos tudo podem frente à natureza. Basta ver de onde sai o financiamento para essas pesquisas “de ponta” e quem se beneficia imediatamente de fazer negócios como sempre (business as usual).

Com essas ideias em mente, fico pensando como iremos sair do enrosco planetário em que estamos. Com recursos naturais super explorados e seu fim previsto para mais algumas décadas, população crescente exponencialmente, geração de poluição de todas as formas destruindo a vida até em rincões mais remotos do planeta seria melhor mesmo não pensar em nada disso e agir como um chipanzé: ir ao shopping fazer umas compras e sentir um alívio imediato. Ou como segunda opção acreditar que a tecnologia irá dar conta de tudo: irá segurar a elevação do nível do mar: é só construir umas barreiras no mar e as ondas ficam batendo lá fora; nos refrescará com aparelhos de ar condicionados mais possantes quando o calor se tornar irreversível; dessalinizará as águas do mar para beber e irrigar as plantações de comida transgênica que irá nos alimentar, exploraremos outros planetas quando esse se tornar inviável, e por aí vai. Viveremos indefinidamente em caixas protegidos contra os que estarão fora desse sistema de proteção, pois ele não vai dar para todos. Os famintos, bem os famintos, paciência… Eles sempre existiram na história da humanidade. A história está aí para confirmar. Acontece que os impérios (até o romano) ruíram quando não conseguiram mais alimentar os seus súditos!
Já o terceiro grupo é dos idealistas. Eu me incluo nesse. Apesar de imaginar o tamanho do abismo para o qual estamos rumando, acredito (ou preciso acreditar) que se trabalharmos juntos, em harmonia com a mãe natureza, ou mãe Terra, conseguiremos reverter esse jogo perdido, ou quase.

A urgência do presente (parafraseando Israel Klabin) é imensa. Não temos nem um minuto a perder, se quisermos mudar o curso dessa história que ruma para o desastre maior. Sei que somos muitos. Gosto de pensar que somos a metade da humanidade, e que a outra metade é manipulada pelos interesses de poucos que detêm imenso poder.
Fico sempre me perguntando para que vai servir tanto dinheiro em bancos se eles falirem. E se os imóveis se desvalorizarem e não tiverem compradores (vide Detroit, dentre outros inúmeros exemplos). E se os carros caírem em desuso por falta de combustível e espaço para circular (vide Freiburg na Alemanha). E se… são tantas as perguntas… Mas, a maior delas é: e se não tivermos ar para respirar, água para beber e comida saudável para comer?? Por quanto tempo iremos sobreviver? Comeremos notas de reais, dólares, euros ou yens? Ou será de yuans (a moeda chinesa), talvez rúpias (a moeda indiana)?

Precisamos engrossar rapidamente as fileiras dos lutadores, de forma organizada para podermos influir de fato no curso dessa triste história. A Cúpula dos Povos deu uma sinalização maravilhosa, pois como disse o Sérgio Abranches em um debate logo após o evento: as revoluções não são feitas pelas classes dominantes, são feitas pelos insatisfeitos. Isso não quer dizer apenas os famintos e despossuídos, isso insere no contexto os que estão enxergando o perigo e lutando para sobreviver e manter um planeta sadio para seus descendentes e as próximas gerações.

Cabe, portanto, a esses indivíduos e grupos se articularem para conseguirmos mudar de rumo já. Entrar no novo paradigma da cooperação, como diz Leonardo Boff. As mídias alternativas estão aí, e funcionando, independente de anunciantes. As pessoas motivadas pelo próprio senso de sobrevivência (da espécie) estão agindo de diversas. Vamos lá, vamos nos reunir e procurar esses outros iguais, assim teremos voz e poder para realmente trazer mudanças para nossas vidas e para nosso futuro.

Cecilia Herzog
Rio de Janeiro, 14 de novembro de 2012

=========================================================================
Por que somos diferentes, persistimos em fazer como no século XX?

Por que cidades da América do Norte, Europa, Ásia, Oceania e até mesmo América Latina são diferentes da Brasil? Por que o Brasil é a sexta economia do mundo baseada no Produto Interno Bruto e as condições sociais, ambientais e urbanas que vemos de modo algum refletem essa nota alta? Será que a concentração de renda aqui é a causa disso? Será que nosso modelo de crescimento econômico continua sendo o mesmo do tempo da colônia, continuamos na era do pau-brasil, quer dizer do petróleo e outros recursos naturais não renováveis girando a nossa economia? E a educação, será que tem um papel a desempenhar nesse atraso de equidade social e devastação dos nossos preciosos biomas? E as nossas cidades estão fazendo o dever de casa e buscando real e eficaz melhoria de vida para seus moradores junto com a natureza?

Os eventos olímpicos tiveram um papel importante no desenvolvimento econômico e na integração de países asiáticos aos processos econômicos, produtivos e de consumo do ocidente. Em 1964, os Jogos Olímpicos alavancaram a economia e transformaram a cidade de Tóquio para que entrasse na era da modernidade. Para se ter uma idéia, a rede de transportes, principalmente sobre trilhos foi implantada a partir de então. O país que saiu de uma guerra terrível na década de 1950, em menos de duas décadas entrou no trem bala Tokaido Shinkansen, o primeiro trem de alta velocidade do planeta. Atualmente a cidade conta com uma rede de transportes que se superpõe em viadutos e túneis subterrâneos que atendem os 30 milhões de habitantes da maior cidade do mundo.
A China tem tido um crescimento econômico impressionante nas últimas décadas. Quem teve a oportunidade de conhecer alguma cidade do país há somente 15 anos atrás e chega lá agora não acredita no que vê. O país entrou com tudo no mercado de produção e consumo de massa, afinal lá são 1, 35 bilhão de habitantes. Os custos ambientais e sociais desse crescimento são enormes. A energia é baseada em carvão mineral e impulsionou da construção da mega usina hidrelétrica Três Gargantas no rio Yang-tse que devastou imensas áreas com impactos sociais e ambientais da mesma proporção. A mobilidade urbana é baseada em carros particulares (principalmente em Beijing que possui seis anéis viários e inúmeras vias expressas que cruzam a cidade em todas as direções). A urbanização tem ocorrido em altíssima velocidade, com um afluxo de migrantes do campo enorme para que façam parte do mercado de consumo.

A China é um país imenso e com contradições do mesmo tamanho. A preparação para receber os Jogos Olímpicos transformou a cidade, em uma enorme malha urbana cortada de vias expressas.. Apesar de tantas vias com tantas pistas os engarrafamentos são da mesma proporção, com uma tremenda imobilidade urbana. A poluição de Beijing e a areia que vem do deserto praticamente eliminaram o azul do céu. O que estão fazendo para melhorar? Começaram a implantar políticas para tornar a circulação de carros mais cara, como é em Xangai. Limitando a venda de automóveis a 240 mil unidades por ano, Ao mesmo tempo investem em por novas tecnologias: solar, de construções de estradas e eco-cidades (ecocities), parque da Expo Xangai 2009, o parque Olímpico de Beijing entre incontáveis planos e projetos voltados para a pesquisa sobre cidades sustentáveis e em como irão resolver os imensos desafios que têm pela frente.

No entanto, apesar de toda a grandiosidade e o foco no consumo, o parque Olímpico de Beijing é excepcional. Cobre uma imensa área, antes degradada, com alagados construídos para tratar as águas, espaços para relaxamento e contato direto com a natureza, um ecoduto que foi projetado para conectar os dois lados do parque possibilitando a mobilidade da fauna e das pessoas sobre uma autoestrada de altíssimo tráfego. Lá em cima parece que estamos fora da cidade. Aliás, poderíamos seguir esses e outros exemplos de oásis de altíssima qualidade que aliam benefícios socioecológicos, ou seja para as pessoas e a natureza juntos!

Um bom começo para reflexão é: Os grandes eventos ajudam ou atrapalham? Estamos desperdiçando oportunidades? Sustentabilidade é mais do que $$?

Nos próximos artigos vou escrever mais sobre a Ásia: Coréia e Índia.

Cecilia Polacow Herzog
Rio de Janeiro, 12 de novembro de 2012

=================================================================
O CAOS URBANO NOSSO DE CADA DIA

Depois de meses de imobilidade pessoal, voltei a caminhar na Lagoa ontem de manhã. Nada mudou no caos nosso de cada dia. A reforma da Lagoa organizou um pouco a circulação de pedestres e ciclistas na ciclovia compartilhada, porque marcou o meio e as pessoas sacaram que tem mão e contra-mão. Até onde consegui ir, me pareceu que mais nada mudou além de asfalto e postes novos. Quase fui atropelada por duas bicicletas elétricas em velocidade incompatível com a civilidade e respeito aos cidadãos. As águas poluídas e assoreadas da Lagoa continuam iguais. Tantas oportunidades desperdiçadas no Parque dos Patins. Espaços vazios, impermeabilizados, sem vida… Degradação ambiental, espécies exóticas invasoras ao longo dos “jardins”, terra nua a perder de vista… Enfim, são tantos problemas que fica difícil até enumerar.

A falta de visão sistêmica é evidente. Não se planeja com base em um diagnóstico ambiental e social. Parece mais um remendo chamado de “revitalização” de um espaço vivo, extremamente utilizado pela população e turistas. Merecia um tratamento contemporâneo, sócio-ecológico que poderia trazer além de benefícios econômicos, inúmeros serviços ecossistêmicos.

Na volta professores do Colégio de Aplicação da UFRJ estavam montando um protesto, que em parte explica os enormes desafios e problemas de nossa atualidade: a educação. Ou melhor, a falta dela, ou falta de valorização e investimento em educação de qualidade, de valorização e investimentos em formação de professores qualificados. Tirei várias fotos, pois elas falam melhor. As pessoas iam chegando na pracinha da igreja São José em frente ao colégio, que já foi referência em ensino público. Aliás, quando eu era criança e adolescente as escolas públicas formaram gerações de profissionais competentes. Ia para escola particular quem quisesse. Uma tremenda diferença! Em poucas décadas o sistema de ensino faliu!

Daí fui caminhando para a Rua Jardim Botânico onde estava tudo parado, quer dizer a imobilidade urbana já tinha se instalado. Um caos total, como sempre. Os cariocas avançam os sinais, fecham os cruzamentos, os sinais não ajudam, pois não dá tempo de passar nem um carro. Mas, o pior de tudo é a opção dos transportes de massa. Decidi não andar mais de carro, e tenho enfrentado ônibus lotados, que não param nos pontos, ou param fora deles, que andam como se fossem motocicletas enlouquecidas, onde as pessoas têm que se segurar para não ser lançadas à distância. É uma loucura. Meus amigos de fora do Rio que passam pela experiência de uma viagem em um ônibus urbano, não esquecem nunca mais. É um tremendo cartão de visitas para a cidade “maravilhosa”.

Agora o tema que afeta a quem quer caminhar: as calçadas, praticamente intransitáveis; a preferência é sempre dos veículos que fecham as faixas de pedestres (quando elas existem).

O desperdício de água é cotidiano, e ainda carreiam todos contaminantes que acabam em nossos canais, na Lagoa e no finalmente no mar. Nosso maior atrativo: praias que estão quase sempre poluídas… Lavam os quintais impermeáveis com água da CEDAE, que viaja desde o rio Paraíba e passa por um tratamento químico caríssimo, para acabar poluindo a cidade mais ainda.

Triste realidade a da privilegiada realidade da zona Sul carioca. Imaginem o resto da cidade. Temos muito a aprender para que a cidade se torne amigável para as pessoas, que ofereça qualidade de vida compatível com o marketing que é feito. A realidade é completamente diferente do que lemos em jornais e revistas, do que assistimos em novelas. O imaginário é um, o dia-a-dia das pessoas é outro. E creio mesmo que elas nem se dão conta. Acham que isso é que é bem viver. Ficam só esperando uma oportunidade de se endividar para também ter um carro. Com isso acham que vão ficar livres do inferno astral que é de andar de ônibus, mas na verdade entram em outro que é dirigir um carro! Tudo ao contrário do que poderia ser para ser uma cidade MARAVILHOSA mesmo. E olha que potencial igual ao Rio, eu não conheço.

VEJA AS FOTOS ABAIXO

O Caos nosso da cada dia

Foto de Alfredo Piragibe

Cecilia Polacow Herzog
Rio, 29.06.2012

=========================================================================================
Biodiversidade urbana já! Precisamos nos reconectar com a natureza.

No dia 22 de maio se comemorou em silêncio uma data que deveria ter a maior visibilidade: o dia da celebração da vida, da BIODIVERSIDADE da qual nós fazemos parte e dela dependemos para viver. O que se viu em manchetes de jornais vai na contramão da preservação de nossa espécie: o país procura levantar as contas através de artifícios fiscais que incentivam a entrada de mais carros nas nossas cidades. Com isso o governo procura resolver questões de curtíssimo prazo para evitar que os efeitos da crise internacional apareçam por aqui nesse momento. A abordagem, como sempre é pontual, míope. Falta visão sistêmica e pensamento para construção de uma sociedade sustentável e resiliente que funcione no longo prazo. Somos cada vez mais vulneráveis e dependentes de exploração de recursos naturais que estão em processo de esgotamento e extinção. Estamos cada vez mais distantes das grandes transformações necessárias para que a sociedade migre para uma economia realmente verde, ecológica, que possa se desenvolver de forma socialmente justa e ambientalmente sustentável. Continuamos na “política econômica do pau-brasil”, onde a extração de nossos recursos naturais é o eixo que move a economia.
A venda de carros é a ponta do iceberg de problemas estruturais muito mais profundos e arraigados em nossa cultura econômica de dependência de uma indústria que privilegia o rodoviarismo, transporte individual e poluente, que tem três desdobramentos: (a) livra o Estado da responsabilidade de prover transportes de massa eficazes; (b) leva à imobilidade individualista, onde cada cidadão se encontra preso em seu veículo durante longas e improdutivas horas do dia, e ainda são levados a crer que por possuírem veículos possuem liberdade de ir e vir; (c) por fim, estimula o espraiamento urbano de uma sociedade de consumo intensivo sobre áreas naturais ou que poderiam estar produzindo alimentos, com sua impermeabilização e poluição (lembrando que a terra é um recurso natural finito!). Pura falácia. Não existe liberdade em se viver a maior parte do tempo preso em caixas de metal e/ou de concreto, descolados dos nossos ecossistemas de suporte de vida e ainda degradando as nossas paisagens. Essa economia de mercado competitivo e predadora de recursos naturais privilegia uma minoria e já mostrou que não deu certo, é só ver quantas pessoas estão excluídas desse processo e servem apenas para manter uma roda quadrada em rota de colisão com a biosfera e a vida.

As grandes mudanças não estão vindo dos governos centrais, de países, mas de cidades, onde governantes com visão estratégica de futuro têm conduzido transformações positivas e significativas localmente, com a melhoria da qualidade de vida para seus cidadãos. Desde bairros ecológicos espalhados por todos os continentes a megacidades como Seul, que equivale ao tamanho e complexidade da cidade de São Paulo. É possível construir cidades melhores para se viver em harmonia com a natureza. A biodiversidade urbana no Brasil ainda é um tema para poucos, que deveria ganhar ampla visibilidade, pois precisamos de seus serviços ecossistêmicos onde vivemos. Nesse afã de crescer a qualquer custo, o que as cidades têm feito é investir pesado em infraestrutura cinza – estradas, pontes, viadutos e expansão urbana desenfreada -, que promovem significativas transformações nos processos e fluxos naturais, causam a eliminação da biodiversidade e impactam os caminhos das águas com enormes impactos sócio-ambientais e prejuízos no longo prazo.

Por que não investir nas pessoas e na geração de espaços e energia sustentáveis, baseados no novo paradigma orgânico de convivência com nossa casa, o planeta Terra que mantém a rede da vida? Não é simples, mas existem casos de sucesso que podem ser inspiradores e servir de referência para dar o pontapé inicial num novo jogo onde não haverá ganhadores e perdedores. Podemos juntos sair ganhando, com melhor educação para todos e distribuição de renda que rompa com as imensas disparidades sociais, com espaços públicos que propiciem a convivência, respeito e até mesmo veneração pela natureza e pela biodiversidade da qual fazemos parte e dependemos para continuar como espécie e manter nossa civilização. Não podemos perder o sentimento de encanto pela biodiversidade, e não será preso em carros que vamos nos conectar com a natureza!
====================================================================

BRICANDO COM FOGO

Estamos brincando com fogo. E vamos nos queimar, literalmente. A humanidade não aprende com a sua própria história. Ela está acessível em inúmeros livros que contam como sociedades desenvolvidas e poderosas, inclusive o Império Romano, entraram em colapso. Como florestas e terras “produtivas” viraram desertos causados por desmatamentos e manejos insustentáveis. A Matéria do O Globo de 19 de janeiro aborda o artigo de Paulo Artaxo publicado na revista Nature que demonstra que a floresta passou de captadora para emissora de gases estufa. E não adianta porque vamos acabar com ela, não por que não sabemos que isso vai acontecer, é que é preferível continuar do jeito que estamos: vivendo o momento. Pensando no próximo gadget que vamos comprar, ou viajem sensacional que vamos fazer. Por que pensar em coisas ruins, o carnaval está aí. O verão chegou. Mas, os cariocas e turistas não podem freqüentar as praias, que de tão poluídas a cor do mar mudou para marrom. Que vergonha! Todos deveríamos nos incomodar em ver nossos recursos naturais, dos quais precisamos para continuar a nossa trajetória humana na Terra, desaparecerem. Mas, tudo bem. Vamos ao Shopping e fazemos umas compras. É bom, levanta o astral. Isso para não falar nos problemas sócio-econômicos mundiais, pois por aqui não vão chegar. Alguém deve estar tomando conta disso. O mundo está sendo sacudido por eventos sócio-ambientais tremendos, que impactam e irão piorar cada vez mais. Mas, aqui é o Brasil terra abençoada por Deus. Fiquem tranqüilos, não tem problema. Amanhã é sábado e a temporada oficial do carnaval já começou. Vamos tomar um chopp e jogar conversa fora num boteco. Saúde!

20 de janeiro de 2012

============================================================

Ler ou não ler jornal

Várias pessoas me perguntam: pra que você lê jornal? Vivo muito melhor sem saber o que está acontecendo. Quando dá assisto Jornal Nacional e assim fico muito mais feliz.

Tem dias que penso que elas estão certas. Aliás, quase todos os dias. Como não consigo ficar sem ler e sem assistir diversos jornais na televisão, acabo quase invariavelmente começando meu dia com sentimentos negativos: indignação, raiva, tristeza, com vontade de sentar e chorar. Hoje não consegui segurar minha combinação de todos os sentimentos acima e resolvi escrever, quem sabe divido isso com mais alguém.

Lá vai:

Na primeira página do O Globo anunciam exploração de diamantes no berço do Rio São Francisco, a Serra da Canastra. O Parque da Canastra será reduzido de 200 mil para 120 mil hectares. Quem sai ganhando com isso? Provavelmente algumas empresas estrangeiras e alguns políticos e empresários brasileiros. Nós, brasileiros e nossos descendentes, ficaremos com os ônus de lugares degradados, desertificados. A biodiversidade, quer dizer a vegetação e os animais que vivem lá irão sofrer agora: irão perder seus habitats e suas vidas. Serão eliminados.

A tragédia com o Código Florestal está para acontecer, a visão de momento, de privilégios de poucos vai acabar prevalecendo. Em nome de uma agricultura que merece um artigo, ou um livro só pra falar dela. Mas, enquanto não tenho tempo, vale ver um filme que dá pra baixar da internet chamado “O Veneno está na Mesa”, do Silvio Tendler.

Daí, entramos na questão da exploração de petróleo e a briga pelos royalties do pré-sal. Também vale vários artigos, mas só pra refletir: o risco de vazamento é imenso, o que está acontecendo agora com a Chevron não é um acaso. Os casos de derrame de petróleo pelo mundo deixaram tremendos impactos locais, que não tem dinheiro que pague. A sorte, como está no jornal que nosso secretário falou, foi o vento soprar para alto mar, senão nossas praias estariam como foi no golfo do México, na costa do Alaska, na Espanha etc. etc. Então me pergunto se no alto mar não tem vida, permanece o mito de que o oceano é infinito, que podemos jogar tudo lá, inclusive os esgotos de nossas cidades costeiras. A conta está ficando cada vez mais caras. É só comparar o mercado de Angra de 20 anos atrás com o de agora, onde estão os peixes? Mas, não vai parar nesses poços, ainda teremos o pré-sal onde os riscos são maiores. É só esperar, “acidentes” virão. E vida da qual dependemos, está desaparecendo.

Então ligo a TV para assistir o Bom Dia Brasil. Uma notícia me chama atenção, e paro de ler o jornal: uma antiga fábrica de postes (desativada em 2005) está com os produtos químicos extremamente tóxicos em tonéis que estão apodrecendo. O vazamento contamina o solo e o lençol d’água. As pessoas estão morrendo de câncer. Mas, a resposta da cidade é que a contaminação está contida dentro dos limites da propriedade. A repórter fala do cheiro forte, gostaria de saber: (1) se esses gases tóxicos que estão causando o cheiro também ficam retidos em cima da fábrica; (2) se as águas subterrâneas ficam paradinhas embaixo dos limites do terreno.

Pois é, que país estamos construindo? Continua o mito que a Natureza é inesgotável, que podemos estuprá-la para deleite imediato de poucos. É de uma estupidez sem fim, mas vão conseguir aniquilar com nossos maiores tesouros, base de nossas vidas: as nossas florestas e nossas águas. Acho que é melhor mesmo ficar sem ler jornal.

Rio de Janeiro, 23.11.2011

Cecilia

==================================================

SMARTER CITIES IBM, algumas reflexões após o evento.

Nos dias 9 e 10 de novembro, participei de um evento no teatro Municipal do Rio de Janeiro, organizado pela IBM para apresentar o seu grande projeto mundial SMARTER CITIES. Foi um evento grandioso, com a participação do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, convidados de todo o mundo e de diversas cidades brasileiras.

Acredito que o objetivo era mostrar o que a IBM tem feito para transformar as cidades em cidades mais inteligentes. A IBM desenvolve sistemas para melhorar e controlar tudo o que ocorre nas cidades, desde o Centro de Operações no Rio de Janeiro, até o trânsito de massa em Singapura – que tem precisão absoluta, graças ao sistema desenvolvido pela companhia.

Como sempre ocorre, fico cheia de perguntas e questões que ao longo do evento vão se esclarecendo e daí, acabam surgindo outras. E isso me faz viver fazendo perguntas e sempre insatisfeita com as respostas. Bom, o que quero dizer é que vi o nosso prefeito sendo chamado de mais CEO do que político, e que a cidade é considerada uma empresa, e que precisa de eficiência etc. e tal. Até aí, entendo. É preciso uma gestão competente para que a cidade funcione adequadamente. Mas, a cidade definitivamente não é uma empresa. Ainda mais se for tratada como uma empresa transnacional, que não tem vínculos com o lugar, com as comunidades, com as pessoas, com as ruas, os parques, as árvores, os animais e tudo mais que nela vive. As empresas multinacionais têm como objetivo o lucro, a cidade não! A cidade é o habitat das pessoas, é nosso lar, é onde moramos, trabalhamos, nos divertimos, temos amigos, passeamos. Também é onde ficamos engarrafados em milhões de carros e em pé em ônibus enlouquecidos, que se esquecem que têm passageiros e que precisam ser seguros tanto para que quem está dentro, como para quem está fora. A cidade é muito mais do que crescimento imobiliário e construção de grandes vias expressas. Não podemos esquecer disso, em nenhum momento.

Esse enfoque foi me incomodando muito, mas ficou pior. O presidente da IBM não só falou, como projetou um slide que está abaixo, onde afirma:

Good News: WE HAVE AN ENORMOUS NEW NATURAL RESOURCE at our disposal

Escrito exatamente assim para dar ênfase

Boas novas: TEMOS UMA ENORME QUANTIDADE DE RECURSOS NATURAIS à nossa disposição.

Daí, fiquei estarrecida e estou até agora! Como assim, será que não souberam que somos 7 bilhões de pessoas no planeta Terra e que se todos consumirem o que o público convidado ao evento precisaremos de inúmeros planetas para manter esse ritmo enlouquecido? Será que somos nós os pessimistas? Ou será que os recursos são destinados a enriquecer uma minoria (1% da população mundial – muitos estavam naquele teatro). Mas, e os outros? Como é que fica?

Não sei se perdi algo, de repente eles descobriram novos recursos naturais. Talvez seja por isso que estejam fazendo essa insanidade com o Código Florestal. Talvez saibam da mesma coisa, que nós pesquisadores e demais pessoas interessadas em procurar meios de termos uma civilização mais sustentável, com equidade social e em harmonia com a Natureza, não sabemos.

Mas, não é que houve uma surpresa! Para encerrar veio o prefeito da cidade de San José, na Costa Rica. Foi veemente quando falou que é preciso ECOLOGISAR as cidades, conviver em harmonia com a Natureza, e que a cidade é para as pessoas. Contou o que tem feito nos 20 anos em que está no cargo. Tem sido reeleito por ser um prefeito que olha para as pessoas e para a paisagem onde a cidade está. Está tirando os carros e dando espaço paras pessoas. Um VLT (nosso bonde) irá cruzar a cidade para melhorar a qualidade do transporte público de massa, também prioriza bicicletas. Está arborizando as ruas intensamente para trazer a Natureza perto de onde as pessoas estão. Salve Johnny Araya Monge! Seria ótimo que nossos prefeitos fizessem uma visita para conhecer o que está fazendo por lá. Ah! Só para frisar, a Costa Rica é um país pequeninho na América Central, mas detém 5% da biodiversidade do planeta.

Podemos aprender muito com quem está fazendo diferente. Devemos conciliar tecnologia com as pessoas e a Natureza. Pode ser o melhor dos mundos possíveis.

Cecilia Herzog

Rio, 11 de novembro de 2011

Algumas fotos do evento

Prefeito Eduardo Paes e o presidente da IBM Sam Palmisano

=========================================

Potencializar esse bom momento do Rio

O Rio de Janeiro retoma seu lugar na cena nacional e ganha espaço inédito na internacional. Isso é ótimo, ou melhor, pode ser que sim ou pode ser que não. Os indicadores estão realmente mostrando tecnicamente uma cidade melhor: a sensação é de mais segurança, estabilidade e chegam investimentos de todos os lados.

Não querendo estragar a festa, é preciso não esquecer que existem perguntas ainda não respondidas sobre quais os custos culturais, ambientais e sociais que estamos pagando agora e as quais as perdas irreversíveis que estamos causando no presente. O futuro próximo nos cobrará esses prejuízos. Crescer dependendo de recursos naturais não renováveis tem um preço que será pago no futuro. Quem realmente se beneficia dessas explorações de bens que são comuns e irrecuperáveis? Manguezais, áreas alagáveis, biodiversidade nativa, paisagens histórico-culturais que dão a identidade da cidade, memórias locais, atividades autenticamente cariocas em locais onde nasceram e continuam a frutificar, só para lembrar alguns patrimônios da cidade e do Estado que estão sendo eliminados sem piedade, talvez pela falta de compreensão de sua importância.

A oportunidade é imensa de mudar o paradigma e entrar numa sociedade que visa o bem estar. Essa é a vocação dessa Cidade Maravilhosa. A construção dessa nova cidade pode ser realmente transformadora, se considerar que a convivência das pessoas com a natureza e seus processos deve ser incorporada em todos os projetos, de todas as escalas que estão em andamento. O desenvolvimento econômico sustentável no longo prazo deve ser baseado numa economia verde de fato, com foco em pesquisas e empresas de novas tecnologias, energias, transportes limpos e de massa, cultura, lazer e turismo.

É sempre bom frisar que tudo acontece nos espaços urbanos, hoje cinzas, agressivos e desagradáveis. Não é porque temos uma natureza espetacular que nos cerca, com um cenário de cinema, que a cidade onde vivemos o cotidiano seja amigável. Estamos praticamente iguais a São Paulo: engarrafamentos imensos, poluição, ruídos, ilhas de calor, prioridade para carros até mesmo em bairros tranqüilos. Tudo baseado em asfalto e concreto com uso monofuncional. Dá para ser diferente basta querer. Inúmeras cidades estão buscando esse caminho. O Rio pode ser um modelo, temos um patrimônio natural que está entremeado na malha urbana. É só estender morros abaixo, entrar pelas ruas, calçadas, canais, lagoas, quintais, tetos e muros. Está tudo para ser refeito, em vez de investir em projetos “maquiagem” onde mais cimento irá recobrir o nosso solo, pode-se alocar as verbas em projetos que de fato tragam sustentabilidade, colaborem para a construção de uma cidade resiliente, com mais qualidade de vida e saúde física, emocional e mental. O Rio e seus moradores merecem potencializar esse bom momento para deixar um futuro melhor para seus descendentes.

Rio, 7 de abril de 2011

============================================================

É preciso pensar diferente

Hoje o Japão está sob uma tremenda insegurança, apesar de ter teoricamente se preparado para enfrentar as forças naturais da melhor maneira que humanos poderiam fazer na tentativa de controlá-las. Não funcionou. A força do terremoto excedeu o que foi esperado, o tsunami varreu uma vila inteira, a usina nuclear está se desmanchando, os mortos e contaminados pelas radiações chegam a milhares de pessoas, isso sem contar os impactos econômicos e ambientais que devem ser monstruosos.

É mais uma evidência que a saída para a humanidade é a construção da resiliência através da busca por soluções que mimetizem e tirem partido da natureza. Não podemos dominar as forças naturais. É preciso que as pessoas assumam um papel de humildade e compreensão real de que o convívio é a melhor maneira, senão iremos perder sempre.

O Primeiro Ministro japonês anunciou medidas extremas de cortes de energia programados, ou seja, racionamento drástico. Imagine o que está acontecendo por lá: os prédios são altos, o frio intenso, a dependência de transportes de massa é total – a malha ferroviária é gigantesca e depende de energia nuclear. A paisagem japonesa é impressionante: ilhas comprimidas e estreitas com espaços limitados para viver e plantar entre os Alpes e o mar. Cada centímetro é aproveitado, produzem 100% do arroz que consomem, são exportadores de peixes e importam 60% do resto dos alimentos que consomem. Mesmo assim a falta de alimentos e combustíveis já é uma realidade, com filas enormes e o medo de novos tremores.

Será que agora irão pensar em aproveitar o potencial natural das marés e ventos, sem falar na solar, para gerar energia sustentável de modo a evitar futuras catástrofes? E como podem ser minimizados os efeitos dos tsunamis? Será que existiam ecossistemas como nossos manguezais que protegiam as linhas de costa? Estive em Tóquio num parque onde refizeram ecossistemas costeiros com áreas alagadas sensacionais, repletas de biodiversidade. Será que isso amenizaria as forças das ondas gigantes? Felizmente o tsunami não entrou numa área mais densamente povoada, senão não dá para imaginar o que poderia acontecer.

Acho que a reflexão para esse evento extremo é: o que pode ser feito para minimizar os riscos? Como adaptar as cidades para eventualidades extremas que podem ocorrer? E elas ocorrem (apesar de sempre acharmos que não vai ser conosco), temos visto isso com freqüência cada vez maior. Devemos trazer isso para a nossa realidade e buscar soluções que mimetizam os processos naturais, com a introdução da natureza dentro das áreas urbanas onde as pessoas estão. Preservar e conservar os ecossistemas marinhos e estuarinos existentes. Isso não apenas irá prevenir catástrofes, mas prover uma vida melhor no cotidiano da população. Os serviços ecossistêmicos que prestam são insubstituíveis. É urgente produzir alimentos dentro do perímetro urbano, em quintais, lotes vazios, varandas e tetos verdes; proteger os mananciais locais, em caso de ruptura do sistema que importa água de outras bacias hidrográficas. Enfrentar as vulnerabilidades e construir soluções que dêem resiliência no longo prazo.

É preciso levar o tema a sério, e começar já com o planejamento de uma infraestrutura verde para as cidades. Fazer projetos-piloto em cada localidade, e “aprender fazendo”, uma vez que não há receita pronta, uma fórmula milagrosa que resolve todos os problemas. O processo é dinâmico deve ser adaptado às realidades locais. Não dá mais para tampar o sol com a peneira: soluções tradicionais não resolvem, é preciso pensar diferente.

Cecilia Polacow Herzog

Rio de Janeiro, 14 de março de 2011

==============================================================

Carta de despedida para o meu querido mestre Fernando Chacel que nos deixou nesse domingo, 06.03.2011. Está fazendo muita falta, especialmente pelo seu entusiasmo com a paisagem, em como se planejar e  projetar com ela, respeitando seus processos e fluxos, considerando a sua estrutura. Além, claro de sua alegria de viver.

Querido Chacel,

Não há como expressar a minha gratidão e reconhecimento pela sua contribuição para as mudanças que ocorreram em minha vida. Fui estudar paisagismo para sair de escritório, de empresa. Não tinha a menor idéia da revolução que estava por vir. E foi súbita. Começou logo no primeiro encontro, quando esperava aprender o “suficiente” para fazer belos jardins. Na primeira aula você trouxe um mapa de uma bacia hidrográfica na Ilha Grande, e ensinou o que eram o caminho das águas, as declividades e tudo o mais que era preciso para começar a entender os processos e fluxos da paisagem. E daí abriu não uma porta, mas um novo universo para mim. Estava querendo mudar de vida, ia fazer 50 anos, e mudei mesmo!

Passei a ver não apenas a paisagem que me cercava de forma totalmente nova, mas a vida de um jeito que jamais imaginei. O olhar sistêmico, holístico tomou conta de meus pensamentos e buscas que se perpetuam e se alargam. Não deixo de pensar em você a cada nova descoberta. Chacel, você me ensinou a olhar, a sentir e dar valor a outras coisas. Sim, os seus valores eram novos para mim. Você me ensinou que estamos todos conectados, todos: a natureza (fauna e flora), as pessoas e a paisagem onde todos nós vivemos. Mostrou para todos nós, seus alunos, que o convívio pode ser harmonioso, que podemos aproveitar os ecossistemas nativos para viver melhor, mais felizes e saudáveis. Para isso, precisamos educar para conservá-los. Minha ignorância, como a da maioria da população era imensa, e você me deu novas luzes para iluminar o meu caminho.

A sua humildade e paixão por coisas simples são um exemplo que procuro lembrar constantemente. A sua dificuldade em enfrentar o reconhecimento de sua importância na cena nacional, foi felizmente enfrentada em outubro de 2009 na exposição de seu trabalho no Jardim Botânico e de sua apresentação para profissionais da área de todo o mundo no congresso internacional da ABAP. Você estava feliz, e mostrando apaixonado como sempre, seu trabalho. Trabalho esse que deve ser inspirador de como os profissionais da paisagem devem planejar e projetar para que tenhamos cidades melhores para se viver, junto com a natureza, valorizando os ecossistemas nativos, e os processos e fluxos naturais que ocorrem na paisagem. Fui muito privilegiada de conviver com você por um ano e meio intensamente, de aprender os fundamentos que balizam minhas atitudes e convicções atuais.

Obrigada.

Cecilia Herzog

=================================================

É hora de priorizar a infraestrutura verde

A adaptação das cidades às mudanças climáticas, para que se tornem resilientes aos impactos que já estão ocorrendo em todo o planeta, como: inundações, deslizamentos, desertificação, falta d’água, corte de suprimentos de energia e matéria etc., tem sido tema de vários congressos e seminários dos últimos dois anos. As previsões mais sombrias têm se mostrado pequenas perto da velocidade do que vem ocorrendo. O papel da biodiversidade urbana, da desimpermeabilização do solo, dos transportes alternativos de baixo impacto e de massa com combustíveis limpos, da geração de energia local e renovável, e da economia de água e energia são considerados pontos primordiais na construção de cidades sustentáveis e resilientes. Todos devem ser reunidos em um plano integrado de infraestrutura verde, que consiste numa rede de espaços permeáveis e de preferência arborizados (compreendidos os fragmentos de ecossistemas naturais) que se conectam através de ruas e rios renaturalizados, e outros potenciais corredores verdes.

Uma enxurrada de projetos, propostas e notícias sobre as transformações dos espaços urbanos do Rio de Janeiro, inunda a mídia. Porém, falta a administração municipal divulgar se está planejando e como pretende enfrentar os desafios atuais e futuros de forma sustentável. A cada chuva que para a cidade, surgem notícias sobre projetos milionários de drenagem de áreas historicamente problemáticas. O nível do mar está subindo e as imagens divulgadas de muitos projetos estão à beira d’água, como se nada fosse acontecer.  A ocupação de áreas alagáveis, encostas e ecossistemas costeiros está cobrando um alto preço da população. Áreas de produção de alimentos, fundamentais para segurança alimentar, estão sendo erradicadas. Estão sendo cometidos os mesmos erros históricos tão conhecidos de todos. Com o passar do tempo, a tendência é que as coisas fiquem mais e mais graves.

Inúmeras cidades, regiões e países estão trilhando caminhos inovadores, ao planejar e implantar projetos que consideram fatores abióticos, bióticos e antrópicos, em diversas escalas.  A infraestrutura verde já é uma realidade em muitos lugares. Investir em pesquisas e projetos que mimetizam a natureza tem dado excelentes resultados. Para isso, é preciso conhecer como os processos naturais e os fluxos que acontecem na paisagem urbana, e transformar os espaços urbanos monofuncionais em multifuncionais. Ruas, estacionamentos, telhados, canais e jardins podem oferecer inúmeros serviços ecológicos, como: coletar e drenar águas das chuvas, diminuir as ilhas de calor, reduzir temperaturas internas e o consumo de energia, limpar o ar, filtrar as águas de escoamento superficial, melhorar a saúde e a qualidade de vida da população, além de reduzir enchentes e conter deslizamentos. É uma tarefa transdisciplinar que requer a participação da comunidade com transparência.

O Rio de Janeiro tem uma oportunidade única de reverter esse processo. A incorporação dos projetos pontuais em andamento em um plano holístico de infraestrutura verde pode trazer benefícios concretos e sustentáveis para os moradores de hoje e do futuro. Não basta reduzir emissões de gases estufa. Atrair empresas de ponta requer qualidade de vida para seus funcionários. Segurança é primordial, mas qualidade de vida urbana vai além, demanda que ruas e espaços públicos sejam devolvidos à população, com múltiplas funções essenciais. Isso é possível e necessário em toda a cidade, como pode ser conferido em propostas vencedoras do Concurso Morar Carioca de urbanização de favelas promovido pelo IAB-RJ e a Prefeitura do Rio de Janeiro.  Preparar a Defesa Civil para agir em casos de calamidades é fundamental, mas não é solução sustentável no longo prazo. Não irá evitar nem mitigar os efeitos da urbanização desordenada, ou mal planejada. É hora de agir em benefício da coletividade, de planejar uma infraestrutura verde para o Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro, 06 de janeiro de 2011

=====================================================

Vídeo sobre o nascimento e expansão da cidade do Rio de Janeiro em direção à Barra da Tijuca. Interessante assistir e refletir à luz da realidade e conhecimentos de hoje.

http://vimeo.com/5598293

=======================================================

Fui procurar uns artigos antigos e encontrei esse que foi publicado no Globo depois das chuvas de abril de 2010. Vale refletir o que foi feito de lá pra cá:

  • As Vargens estão sendo aterradas para crescimento urbano “ordenado”, com vias que barram os fluxos das águas, mais espaço pra subir mais edificações em áreas alágaveis;
  • O túnel da Grota Funda segue construção a toque de caixa (cadê o EIA-RIMA), vai cortar não apenas o morro para o túnel, mas vai sair sobre as áreas alágaveis e que eram protegidas pela REserva Arqueológica e Biológica de Guaratiba (tiraram o Arqueológico – fica mais fácil fazer estragos ecológicos do que culturais – tiraram o IPHAN da jogada!!); ainda tem a proposta da construção de um muro de 18 Km (saiu no Globo).

Afinal pra que MANGUE?? pois é um ecossistema importantíssimo para nossa sustentabilidade e proteção, além de suas funções como berçário de fauna, limpa as águas poluídas, e muito mais.

  • A estrada será duplicada, e quais as implicações para a futura ocupação?
  • As áreas que hoje produzem comida estão sendo eliminadas. e nossa segurança alimentar. Estamos sofrendo com a ruptura nas produções serranas. Deveríamos prezar e incentivar agricultura aqui, no Rio mesmo, em todas as escalas – preservar o pequeno produtor e dar força para o orgânico.

Estão fazendo tudo na contra mão. É só ler um pouco e ver o que acontece em outros países que buscam ser resilientes e não passar pelas desgraças que já se tornaram quase cotidianas por aqui. Está sendo banalizada como a violência foi.

Vamos ver os mortos soterrados com a mesma indiferença que vemos os mortos a tiros nas cidades.

É HORA DE AÇÃO, DE MOBILIZAÇÃO para defender as nossas vidas no presente e no futuro. Aconta mais uma vez é alta, em vidas e em custos financeiros, ambientais e sociais. Deixa sequelas que serão usadas por políticos oportunistas e inescrupuloso para faturar votos! a seguir o artigo:

O Rio precisa de mais árvores

As chuvas que paralisaram o Rio de Janeiro nessa terça-feira não se constituem exatamente num evento atípico. Elas são normais em clima tropical e impactantes devido à sua localização geográfica, entre os maciços e o mar. A urbanização alterou a dinâmica das águas, devido à canalização de rios e córregos, desmatamento das encostas e aterro de áreas alagáveis, com a impermeabilização do solo. As enchentes ocorrem mesmo com chuvas “típicas”. De fato, em eventos extremos combinados com a maré alta é quase impossível evitar danos.

Essa é uma ótima oportunidade para discutir novas alternativas de urbanização, além de revisar como se deve planejar a ocupação de novos locais. É fundamental contemplar os processos e fluxos naturais. Por exemplo, a proposta de ocupação de áreas úmidas na Baixada de Jacarepaguá deverá causar problemas, pois elas desempenham funções essenciais para a sustentabilidade da cidade, como detenção e retenção das águas, conservação da biodiversidade, manutenção da qualidade das águas, regulação do clima, entre outras.

Em áreas urbanas é necessário buscar soluções que mimetizem os processos naturais. Na última década, a infraestrutura verde tem se firmado como um novo paradigma que contribui para a sustentabilidade urbana. Tem sido implantada em inúmeros países, com resultados positivos que já podem ser medidos. Ela se constitui numa rede interconectada de espaços abertos vegetados (de preferência arborizados) que restabelece a estrutura da paisagem. A idéia é que a cidade funcione como uma esponja, que seja o mais permeável possível. Existem inúmeras possibilidades de adaptar a infraestrutura cinza existente.

A infraestrutura verde é multifuncional e oferece inúmeros benefícios, como: redução do escoamento superficial, melhoria do clima urbano; amenização das ilhas de calor; incremento no transporte alternativo; melhoria da qualidade das águas e do ar; captura de carbono; aumento da biodiversidade; melhoria de recreação e lazer e ambientes mais saudáveis, com menos estresse. Esses benefícios refletem no desenvolvimento social e econômico das cidades. A melhoria da qualidade de vida atrai empresas de ponta. Na Europa, Ásia e América do Norte existe uma competição saudável entre as cidades para ser a mais “verde”.

O Rio de Janeiro tem um desafio que é transformar a cidade maravilhosa (hoje poluída e deteriorada) numa “Cidade Verde Maravilhosa”. Agora é a hora de fazer essa escolha. Que Rio queremos? Onde e como serão feitos os investimentos previstos? A incorporação da infraestrutura verde trará benefícios ambientais, sociais e econômicos. Eventos climáticos poderão ser amenizados e até mesmo evitados. Os impactos econômicos devem ser levantados para que se possa de fato avaliar quanto custa manter as soluções tradicionais para os problemas recorrentes versus a busca por soluções inovadoras. A cidade poderá se tornar referência na América do Sul, juntamente com cidades como Curitiba e Bogotá.

CECILIA P. HERZOG é paisagista urbana, Mestre em Urbanismo, presidente da ONG Inverde – infraestrutura verde e sustentabilidade urbana. www.inverde.org

Publicado em O Globo – Opinião, pg. 7 em 17 de abril de 2010

===============================================================

Força tarefa para nossas cidades

Hoje é mais um dia de luto no Estado do Rio de Janeiro e no Brasil. Por aqui uma chuva intensa mata mais que a queda de um Jumbo. A força da natureza não distingue ricos e pobres, leva todos da mesma maneira. O maior problema que nós brasileiros sofremos e que leva a essa sequência sem fim de tragédias se chama: amnésia. É só aparecer o primeiro sol e as centenas de mortos dessa primeira chuva do ano serão esquecidos. As promessas, as providências futuras idem. O Rio é conhecido pela sua alegria. Isso é fruto do gosto pelo superficial, raso, efêmero: praia, futebol e farra. Ah! Isso todo mundo gosta, se esbalda. Eu também gosto. Mas a vida não é feita só de prazer. A vida é feita de trabalho, comprometimento, construção de uma sociedade voltada para o coletivo. Senão, vivemos certos de que a tragédia virá. Só não se sabe a data e em que endereço, mas virá.

Os governantes fazem o que dá voto: sambódromo, passarela do samba, largas avenidas asfaltadas nas margens dos rios, aterros de áreas alagáveis, eliminação de áreas naturais que a população não vê utilidade, encanamento e retificação de rios que incomodam seus vizinhos, mais e mais condomínios “modernos” com áreas externas sem nenhuma função ecológica – quase tudo impermeável, grandes obras. Daí? e daí dá nisso. É bom ressaltar que as coisas estão ficando piores. As mudanças climáticas estão em ação. Que a coisa está pior e ficará cada vez mais grave não há mais dúvidas. A dúvida é só quanto pior. As previsões ficam a cada ano, mais sombrias. É só querer enxergar, os dados estão aí disponíveis para todos. Não é mais segredo.

Cidades do mundo inteiro se preparam e buscam formas de se adaptar para se tornar mais resilientes aos eventos extremos. Nos Estados Unidos, Japão, Chile e outros países que são assolados por furacões violentos, terremotos e nevascas, os projetos devem obedecer legislações severas para segurança preventiva da sua população, e minimizar as perdas econômicas e ambientais. Os planos de evacuação são efetuados com rigor. Os impostos pagos pelos moradores revertem para sua segurança. Quando acontece uma tragédia os mortos têm identidade, rosto. Suas imagens são levadas a público, a gente vê que eram pessoas e não apenas números de uma estatística mórbida.

Pode-se ver a solidariedade que corre nesses momentos, todos correm pra ajudar. Essa energia poderia ser uma força transformadora real para uma sociedade melhor, com valores mais profundos. Comprar um carrão não é uma grande conquista. Conviver com a natureza é. Nós somos parte dela e dela dependemos para sobreviver enquanto indivíduos e espécie. Precisamos de água limpa, comida e ar. E isso quem nos dá é ela, que depende de uma rede delicada e sensível para se manter. Nós humanos causamos danos tão severos que estamos ameaçando não apenas outras espécies, mas a nossa.

Não dá pra ver essas tragédias e ficar passiva, sem nenhuma ação. Precisamos nos unir para cobrar ações efetivas e eficazes de nossos governantes. Nós damos esse poder através de votos aos tomadores de decisões. Temos o dever de cobrar transparência e participação para garantir que tragédias como as dessa semana não ocorram mais. É urgente a criação de uma força tarefa transdisciplinar de longo prazo para planejar, projetar, executar e monitorar a construção e renovação de nossas cidades.

Cecilia Polacow Herzog

Paisagista urbana, presidente da Inverde

www.inverde.org

Rio de Janeiro, 14 de Janeiro de 2011

=============================================================

Será que dá pra mudar??

Sempre que volto de viagem me dá um desânimo, uma certa depressão com a nossa realidade. Quando ficamos aqui, sem ter referências que se pode morar em cidades com muita qualidade de vida, a vida vai levando e não prestamos atenção ao nosso cotidiano que é muito desgastante. No Rio, como em outras cidades brasileiras, a qualidade de vida é muito ruim, apesar de termos aqui um potencial sensacional.

Andar nas ruas é um desafio, de bicicleta idem. De ônibus é quase uma aventura, da hora em que paramos no ponto até a hora em que descemos dele. Tem que ter nervos e músculos de aço, se não encontrar uma cadeira livre para sentar. Pensar que carro resolve é um engano, pois ficamos sentados atrás de um volante, sem produzir nada, com os nervos à flor da pele, pois além de engarrafamentos constantes, ainda temos que duelar com os carros do lado por um lugar na faixa (quando tem faixa).

Mas, as mazelas diárias não se restrigem ao deslocamento. Temos que enfretar filas e esbarrões em todos os lugares, as pessoas não têm urbanidade. Sou paulista, talvez por isso marcar hora por aqui seja sempre um outro desafio: não saber qual o tempo de espera que vou ter, não importa qual compromisso. O atraso parece ser uma instituição carioca, e é tido com a maior naturalidade, as pessoas nem se apercebem que fazem os outros esperar. Talvez porque achem que todos devem se atrasar mesmo.

Daí vem as outras questões, mais profundas, como a participação da comunidade, o envolvimento e comprometimento nas atividades e desenvolvimento da cidade em todos os níveis. Parece que a maioria só está preocupada consigo mesma, não percebe que o que faz com os outros volta contra si mesma.

Sempre que viajo procuro conhecer pessoas do local, conversar e entender como vivem, o que fazem, qual o lazer, outros interesses culturais: música, artes, dança, cinemam teatro etc. Tem lugares tão cheios de cultura e arte que fico com uma tremenda inveja. Além da participação e engajamento nas discussões políticas, com respeito às diferenças de opinião, sem policiamento ideológico. A liberdade de pensar diferente, muitas vezes enriquece as discussões, percebemos novos olhares e possibilidades.

Esse desenvolvimento, muitas vezes é expresso claramente na qualidade dos espaços públicos, no seu projeto e manutenção, nos usos adequados para cada local. Quando ando na Lagoa, é o que faço várias vezes por semana, a tristeza aumenta. É um espaço com proporções quase monumentais, com uma das paisagens mais espetaculares que conheço, completamente degradado. Literalmente, está caindo aos pedaços. É só um olhar um pouco crítico, nem é preciso ser muito educado (do ponto de vista ecológico ou estético), mas ver áreas esburacadas, erodindo, com plantas invasoras tomando conta de canteiros, enormes áreas sem uso, enfim é um enorme espaço público subutilizado e feio, aliás horroroso. Falta arborização adequada para quem caminha, nas poucas áreas de lazer. A ciclovia combinada com pedestres, e pessoas que se exercitam são um desafio diário, para segurança de crianças e idosos.

Um destaque deve ser dado ao desperdício de espaço que é o “O Espaço da Águas”, pequeno edíficio do governo do Estado que tem uma mostra permanente de fotos de águas. o seu entorno é lamentável para um local que se propõe a educar e refletir sobre as águas. Poderia ser um local de laboratório sobre as águas, mostrar para a população e os visitantes os processos naturais, com drenagem naturalizada, vegetação nativa, teto verde: um modelo a ser copiado pelos moradores da cidade e seus visitantes. Mas não, é um antimodelo. Aliás, o jardim do Clube Caiçaras é outro antimodelo, com os pingos de outro podados, pretendendo ser um jardim frances, ou italiano, será? As pessoas passam fotografam e levam esse modelo pra suas casas e prédios.

Esses espaços no entorno da Lagoa poderiam ser educativos, com rica biodiversidade, multifuncionais, detendo as águas das chuvas, ajundando a prevenir enchentes, diminuindo as ilhas de calor. É só olhar onde as pessoas ficam num dia de sol e ver que poderia ser mais arborizado, com espécies nativas e ter plaquinhas com os seus nomes. Para gostar é preciso conhecer, e isso não acontece. As pessoas não conseguem reconhecer as espécies.

Dá pra sentir a necessidade de apego ao natural. Todos ficam encantados com os frangos d’água, uma espécie exótica que dominou a região. Por que não investir em espécies nativas e criar vínculos com a população. Educar para que não alimentem, que isso prejudica. Criar outras formas de afeto.

Bom, agora vou dar minha caminhada. E voltar cheia de idéias de como poderia contribuir para que um dia a Lagoa e o Rio possam  me dar orgulho de ser cidadã carioca.

Bom dia!

2.11.2010

======================================================

Seminários em Estocolmo

Estive fora nas últimas duas semanas. Fui para Estocolmo para dois seminários promovidos pela cidade. O primeiro foi What about urban nature? sobre biodiversidade urbana e serviços ecossistêmicos. Mais uma vez, participei de um evento que aborda a questão relevante de uma infraestrutura verde para dar suporte às funções urbanas de forma sustentável e resiliente. O segundo foi sobre Águas na cidade. Foi um complemento sobre drenagem e corpos d’água. Conheci muita gente nova, a maioria engenheiros e alguns arquitetos.

Foram apresentações, nos dois casos, com uma oficina antes da visita técnica. Foi uma grande experiência, trabalhar lado a lado com pessoas que estão fazendo as cidades do norte da Europa.

A participação de paisagistas (ou arquitetos paisagistas) que são os profissionais treinados para trabalhar a paisagem, entender seus processos e fluxos, fazer a interação com a ecologia urbana, e demais temas sociais, ambientais e econômicos fez falta na oficina sobre adaptação das cidades às Mudanças Climáticas. Os participantes concordaram que nós paisagistas, com a devida formação, somos os técnicos que deveriam encabeçar, ou ter uma participação ativa nas equipes que buscam um futuro melhor para nossas cidades.

Assim que conseguir um tempo, vou escrever sobre os dois seminários com mais detalhes. Pretendo também colocar fotos da visitas técnicas, com avaliações críticas sobre o que visitei.

Rio, 25 de outubro de 2010

=======================================================

Acho que é extremamente oportuno o que o Carlos Vereza está colocando em seu blog: (http://carlosverezablog.blogspot.com/) , ou que o Jabor tem escrito no Globo (como foi essa última terça-feira (vale procurar na internet, ou nos jornais da semana), ou diversos outros colunistas, articulistas, além de correntes da internet pelo Brasil afora.

Estamos todos anestesiados? Seja para benefícios próprios imediatos adquiridos a partir de programas conjunturais, seja por acreditar que nada podemos fazer para mudar o fato da popularidade do presidente Lula – ninguém quer comprar briga com 80% de popularidade.

Mas, e os riscos que corremos de um autoritarismo declarado a partir de 2011? Daí é que não vai dar mesmo pra colocar o que se pensa, agir contra a corrupção endêmica e epidêmica que grassa como nunca na história desse país (que sempre conviveu com ela de forma bastante apática, como se fosse inevitável).

Como ficaremos com um congresso (Poder Legislativo) dominado pelo PT (se ele estiver no comando do Poder Executivo)? O que ocorrerá com o tripé de um sistema democrático: o Poder Judiciário? Vai ficar mesmo soberano para defender a democracia, a liberdade de expressão, os direitos civis, condenar os acusados dos mil e um escândalos que inundaram o país nesses últimos anos, e que ainda aguardam julgamento?

Ainda temos tempo de mostrar que existe uma parcela importante da população que NÃO ESTÁ SATISFEITA COM A FESTA QUE SE INSTALOU EM MUITAS INSTÂNCIAS DESSE PAÍS. Existem cidadãos íntegros, idealistas, que acreditam em um país melhor: com igualdade de direitos e oportunidades, e correspondente responsabilidade. Um país que poderá viver em harmonia com a sua diversidade: social, cultural e biológica.

O consenso é burro! Precisamos idéias novas, ar fresco intelectual, contribuições de todas as áreas do conhecimento, de ciência para embasar as decisões. Chega de decisões, a portas fechadas, que irão afetar a vida de todos; de audiências públicas apenas para preencher requisitos legais. É preciso abrir para a participação popular, mas que esse povo seja educado para poder de fato contribuir.

A saída agora é MARINA SILVA!

Ela está em ascensão e está aglutinando uma grande diversidade de pessoas com um objetivo comum: um BRASIL MELHOR, inserido no terceiro milênio.

Um país que pode se desenvolver em bases sustentáveis, com base em conhecimento.

Ela saiu das mais precárias condições de vida, ainda existentes no país, e para isso usou o conhecimento para vencer as barreiras sociais e culturais. Tem visão de conjunto, contemporânea.

MARINA POR OPÇÃO DE UM BRASIL MELHOR PARA TODOS! 

Cecilia Herzog

 

 

2 respostas para Reflexões

  1. Guina Ramos disse:

    Admirável, o seu trabalho, Cecília Herzog, certamente!… Mas, diante dos fatos, não me surpreende que tenha se cansado… É cada vez mais difícil (para mim, pelo menos) fazer fé em um futuro sensato para a humanidade. Pelo menos a nível local, já “concluí” (supondo, como um exercício de previsão que tudo continue como está) que, se não antes, “2112 …é o fim!”… Escrevi sobre isto este livro, com o meu mais resistente bom humor, apenas para ver se poderia ajudar, em alguma coisa, para o aumento da consciência das pessoas, no sentido de evitar este (fim do) futuro. E o faço como um legado pessoal, embora não creia que será nesse nível que tudo se resolverá. Ou, mais provavelmente, não… Com minha admiração, Guina Ramos http://www.2112ofim.blogspot.com.br/

    • Cecilia Herzog disse:

      Haja bom humor Guina. Realmente está difícil.

      Creio que no ritmo que a coisa está, com a ignorância e ganância da minoria burra, e com o descaso da maioria ignorante facilmente manipulável, a humanidade nem chega lá.

      Enquanto não houver a consciência que sem a natureza não sobrevivemos, extinguimos e seremos extintos juntos. Além disso, as disparidades sociais já mostram os seus resultados em todos os rincões do planeta.

      Vivemos hoje a herança de alguns séculos de exploração da natureza e dos nossos iguais. As contas já estão sendo pagas, e estão muito altas.

      Saudações ecológicas!
      Cecilia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s